segunda-feira, 31 de julho de 2017

Mesmo com desemprego menor,Brasil perdeu 1,093 milhão de vagas formais

Queda registrada no 2º trimestre foi a primeira desde o fim de 2014; população ocupada voltou ao patamar de 90 milhões de trabalhadores










Daniela Amorim e Francisco Carlos de Assis, O Estado de S.Paulo
28 Julho 2017 | 12h08
O aumento da informalidade fez a taxa de desemprego cair pela primeira vez desde o fim de 2014: passou de 13,7% no primeiro trimestre do ano para 13% entre abril e junho. Nesse período, 690 mil pessoas deixaram a fila do desemprego e a população ocupada voltou ao patamar de 90 milhões de trabalhadores pela primeira vez em seis meses. Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) foram divulgados nesta sexta-feira, 28, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
“Sem dúvida, esse é um movimento positivo, mas está marcado por postos de trabalho não registrados. O mercado cresceu, mas pela informalidade”, explicou Cimar Azeredo, coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE. Na comparação com o primeiro trimestre, três situações deixam isso bem claro: foram fechadas 75 mil vagas com carteira assinada. Ao mesmo tempo, 442 mil pessoas começaram a trabalhar sem carteira no setor privado e outras 396 mil aderiram ao trabalho por conta própria.


Desemprego
Total de postos de trabalho formais no setor privado encolheu 3,2% no segundo trimestre. Foto: HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO
Desempregados que passaram a atuar como cabeleireiros, manicures e motoristas de Uber, por exemplo, ajudaram a elevar o contingente de informais, disse Azeredo. “Não temos como separar quem é o motorista de táxi e de aplicativo. Mas sabe que o aplicativo é uma forma de resgate do emprego”.
Foi assim na casa de Adriana Regina Lima, de São Paulo. Após perder o emprego de auxiliar de compras, seu marido virou motorista do Uber. Também desempregada, ela passou a fazer ‘docinhos gourmet’ para complementar a renda (leia mais ao lado). “Estou procurando vagas, aceitaria até receber menos, mas está complicado”, disse.
Rendimento. O aumento da informalidade reflete diretamente na renda média do trabalhador, que registrou queda de 1% no segundo trimestre, na comparação com o primeiro. “Se você tem 1,2 milhão de trabalhadores a mais, era esperado que a massa salarial subisse, o que não ocorreu”, disse Azeredo. O total de ocupados subiu 1,4% no trimestre mas a massa salarial ficou estatisticamente estável, totalizando R$ 185,1 bilhões.
Diante da deterioração na carteira assinada, o mercado de trabalho não deve ajudar a melhorar o cenário fiscal desfavorável, alertou o economista-chefe da Icatu Vanguarda, Rodrigo Melo. “O que gera arrecadação é a parte formal da economia. Então temos alguma recuperação, mas sem gerar receita adicional para o governo”.
A indústria criou 375 mil postos no segundo trimestre, o equivalente a um aumento de 3,3% no total de ocupados em relação ao trimestre anterior. O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) aponta que o avanço é reflexo da “melhora relativa de produção que o setor vem tendo nos últimos meses”.
“Foram 94 mil ocupados a mais no setor relativamente ao mesmo período do ano anterior. Com isso, foi interrompida uma trajetória de dois anos de vultosas quedas sucessivas”, ressaltou o Iedi, em nota.
A expansão na ocupação no setor industrial, entretanto, se deu pelo aumento no número de trabalhadores sem carteira assinada, especialmente na indústria alimentícia, informou o IBGE. Na passagem do primeiro para o segundo trimestre, outras atividades que criaram empregos foram o comércio (199 mil funcionários a mais), transporte (131 mil), alojamento e alimentação (77 mil), serviços domésticos (39 mil), administração pública, defesa, seguridade social, educação e saúde (485 mil) e o segmento de outros serviços (238 mil).



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Instabilidade. Para o professor de Economia da Unicamp, Claudio Dedecca, o mercado de trabalho ainda está em “compasso de espera”. Segundo ele, havia alguma sinalização de recuperação econômica, “mas a crise política gerou uma instabilidade da qual não saímos até agora.”
O especialista em trabalho da PUC-RJ, José Márcio Camargo, avaliou o resultado do trimestre como muito bom. “Houve queda na taxa do desemprego numa época em que normalmente a taxa aumenta”. Em sua opinião, como sazonalmente no segundo semestre há uma melhora no mercado de trabalho, ele acredita que a taxa de desemprego feche o ano entre 11,5% e 12%, ante os 13% atuais.
Menos otimista está o diretor da CUT, João Cayres, para quem a situação do emprego vai piorar, “ainda mais depois do anúncio do corte do orçamento para as obras do PAC, pois obras geram empregos”.
João Carlos Juruna, secretário-geral da Força Sindical, teme pela qualidade das novas vagas que estão surgindo, sem carteira assinada. “O País não pode mais ficar nessa pauta única da Lava Jato e deixar de lado a questão econômica.”/ COLABORARAM CLEIDE SILVA, FRANCISCO CARLOS DE ASSIS e THAÍS BARCELLOS
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