04/04/2026

SMART SAMPA: TECNOLOGIA QUE ERRA, PERSEGUE E CRIMINALIZA A PERIFERIA



O caso do morador de Heliópolis detido quatro vezes por erro do sistema “Smart Sampa” escancara um problema central que vai muito além de uma falha técnica: revela o viés estrutural embutido nas tecnologias de vigilância. Quando sistemas de reconhecimento facial operam com bases de dados desatualizadas, cruzamentos automatizados pouco transparentes e algoritmos treinados sem diversidade, o resultado não é neutralidade é reprodução ampliada das desigualdades sociais e raciais já existentes. É preciso perguntar: quem é mais vigiado? quem é mais identificado como “suspeito”? Em uma cidade profundamente desigual como São Paulo, tecnologias como o Smart Sampa tendem a incidir com mais intensidade sobre territórios periféricos, como Heliópolis, onde o Estado historicamente se faz mais presente pela via do controle do que pela garantia de direitos. O erro repetido quatro detenções em sete meses, não pode ser tratado como exceção. Trata-se de um sintoma de um modelo de segurança pública que terceiriza decisões sensíveis à automação, sem mecanismos eficazes de revisão, transparência e responsabilização. Ao afirmar que “não houve falha no programa”, a gestão pública desloca o problema para fora da tecnologia, quando, na verdade, o que está em jogo é a própria concepção de inteligência adotada: uma inteligência que classifica, suspeita e pune antes de verificar, atingindo sobretudo os mesmos corpos de sempre. Segurança pública não pode ser orientada por sistemas opacos que colocam cidadãos inocentes sob permanente suspeita. Sem controle social, auditoria independente e critérios éticos rigorosos, o chamado “smart” corre o risco de ser apenas mais uma face sofisticada da injustiça cotidiana.
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