sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Boff: Quando um bando de corruptos condena uma inocente

26 de agosto de 2016 às 09h50

viomundo
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Fotos Joka Madruga e Yérald Merchan, gravura Jefferson Bezerra, via Mídia Ninja
Uma governanta digna e inocente é condenada por um bando de corruptos da mente e das finanças
25/08/2016
Usando o estilo medieval do tempo de Sâo Francisco dos Fioretti reconto o processo de impeachment da Presidente Dilma Rousseff: Em de que se narra que uma governanta digna e inocente foi condenada por um bando de corruptos da mente e das finanças.
Era uma vez uma nação grande por sua extensão e por seu povo alegre embora injustiçado. Em sua maioria sofria na miséria, nas grandes periferias das cidades e no interior profundo. Por séculos era governado por uma pequena elite do dinheiro que nunca se interessou pelo destino do povo pobre. No dizer de um historiador mulato, ele foi socialmente “capado e recapado, sangrado e ressangrado”.
Mas lentamente esses pobres foram se organizando em movimentos de todo tipo, acumulando poder social e alimentando um sonho de outro Brasil. Conseguiram transformar o poder social num poder político. Ajudaram a fundar o Partido dos Trabalhadores.
Um de seus membros, sobrevivente da grande tribulação e torneiro mecânico, chegou a ser presidente. Apesar das pressões e concessões que sofreu dos endinheirados nacionais e transnacionais, conseguiu abrir uma significativa brecha no sistema de dominação permitindo-lhe fazer políticas socias humanizadoras. Uma Argentina inteira saíu da miséria e da fome. Milhares conseguiram sua casinha, com luz e energia.
Negros e pobres tiveram acesso, antes impossível, ao ensino técnico e superior. Mais que tudo, porém, sentiram resgatada sua dignidade sempre negada. Viram-se parte da sociedade. Até podiam, em prestações, comprar um carrinho e tomar até o avião para visitar parentes distantes. Isso irritou a classe media, pois via seus espaços ocupados. Daí nasceu a discriminação e o ódio contra eles.
Ocorreu que, naqueles tempos, ao todo 13 anos de governo Lula-Dilma o Brasil ganhou respeitabilidade mundial. Mas a crise da economia e das financias, por ser sistêmica, nos atingiu, provocando dificuldades econômicas e desemprego que obrigou o governo a tomar medidas severas. A corrupção endêmica no país densificou-se na Petrobrás, envolvendo altos estratos do PT mas também dos principais partidos. Um juiz parcial, com traços de justiceiro, focou, praticamente, apenas o PT.
Especialmente a mídia empressarial conservadora conseguiu criar o esteriótipo do PT como sinônimo de corrupção. O que não é verdade, pois confunde a pequena parcela com o todo correto. Mas a corrupção condenável serviu de pretexto às elites endinheiras e seus aliados históricos, para tramar um golpe parlamentar, pois mediante as eleições jamais trinfariam. Temendo que esse curso voltado aos mais pobres se consolidasse, decidiram liquidá-lo.
O método usado antes, com Vargas e Jango, foi agora retomado com o mesmo pretexto “de combater a corrupção”, na verdade, para ocultar a própria corrupção. Os golpistas usaram o Parlamento no qual 60% estão sob acusações criminais e desrespeitaram os 54 milhões de votos que elegeram Dilma Rousseff.
Importa deixar claro que atrás desse golpe parlamentar se aninham os interesses mesquinhos e anti-sociais dos donos do poder, mancomunados com a imprensa que distorce os fatos e sempre se fez sócia de todos os golpes, juntamente com os partidos conservadores, com parte do Ministério Público e da Polícia Federal (que substitui os tanques) e uma parcela da Corte Suprema que, indignamente, não guarda imparcialidade. O golpe não é só contra a governanta, mas contra a democracia com viés participativo e social.
Intenta-se voltar ao neoliberalismo mais descarado, atribuindo quase tudo ao mercado que é sempre competitivo e nada cooperativo (por isso conflitivo e anti-social). Para isso decidiu-se demolir as políticas sociais, privatizar a saúde e educação e o petróleo e atacar as conquistas sociais dos trabalhadores.
Contra a Presidenta não se identificou nenhum crime. De erros administrativos toleráveis, também feitos pelos governos anteriores, derivou-se a irresponsabilidade governamental contra a qual aplicou-se um impeachment.
Por um pequeno acidente de bicicleta, se condena a Presidenta à morte, castigo totalmente desproporcional. Dos 81 senadores que vão julgá-la mais de 40 são réus ou investigados por outros crimes. Obrigam-na a sentar-se no banco dos réus, onde seus algozes deveriam estar. Entre eles se encontram 5 ex-ministros.
A corrupção não é só monetária. A pior é a corrupção das mentes e dos corações, cheios de ódio. Os senadores pro impeachment têm a mente corrompida, pois sabem que estão justificiando uma inocente. Mas a cegueira e os interesses corporativos prevalecem sobre os interesses de todo um povo.
Aqui vale a dura sentença do Apóstolo Paulo:”eles aprisionam a verdade na injustiça. É o que atrái a ira de Deus”(Romanos 1,18). Os golpistas levarão na testa, pela vida afora, o sinal de Caim que assaninou seu irmão Abel. Eles assassinaram a democracia. Sua memória será maldita pelo crime que cometeram. E a ira divina pesará sobre eles.
Leonardo Boff é ex-professor de Ética da UERJ e escritor.

No grampo, alvo da Máfia da Merenda diz que Russomanno é ‘novo parceiro’




Relatório da Polícia Civil, de janeiro, preparado a partir de interceptação de mensagens de julho de 2015, sugere proximidade do deputado com dois nomes importantes da estrutura de organização criminosaPor Fabio Leite, Fausto Macedo e Valmar Hupsel Filho
26 Agosto 2016 | 14h27


O deputado Celso Russomanno (PRB/SP), candidato à Prefeitura de São Paulo, é citado em relatório da Polícia Civil no inquérito da Operação Alba Branca – investigação sobre esquema de fraudes em licitações da merenda escolar que se instalou em pelo menos 35 prefeituras e que mirava também contratos da Secretaria de Educação do governo Alckmin.
O deputado não é alvo da investigação – ele detém foro privilegiado perante o Supremo Tribunal Federal -, nem a ele é imputado ato ilícito, mas o documento sugere proximidade de Russomanno com dois alvos da Alba Branca, quadros importantes na estrutura da organização criminosa, César Augusto Lopes Bertholino, o ‘Marrelo’, e Cássio Chebabi.
O relatório da Polícia Civil foi preparado quando estourou a Operação Alba Branca, em janeiro.
Em um contato grampeado, em julho de 2015, Chebabi diz a ‘Marrelo’ que Russomanno é ‘novo parceiro’. Ele afirma que o deputado ‘tá forte prá prefeitura’. César ‘Marrelo’ diz que eles vão ‘jantar’ com o deputado. Afirma, ainda, que Russomanno ‘vai dar duas secretarias’ para Leonel Júlio, ex-deputado e pai do lobista da quadrilha da merenda. ‘Já tá acordado’, afirma ‘Marrelo’.
A Polícia diz que ‘fica claro que (Chebabi e ‘Marrelo’) esperam algum benefício com esta aproximação’. Segundo os investigadores, os dois integrantes da Máfia da Merenda ‘demonstram claramente acreditarem que o caminho mais fácil para a consecução de contratos com órgãos públicos é a aproximação com pessoas que detêm poder de mando nos órgãos públicos visados’.
Russomanno lidera com folga todas as pesquisas de intenção de voto na corrida à cadeira de prefeito de São Paulo, superando seus principais oponentes, Fernando Haddad (PT), Marta Suplicy (PMDB), João Doria (PSDB) e Luiza Erundina (PSOL).
O candidato reagiu com indignação à citação a seu nome. Ele afirma que não conhece e nunca se encontrou com ‘Marrelo’ e Chebabi. Russomanno informou que vai oficiar o Ministério Público pedindo ‘apuração irrestrita dos fatos’.
O relatório que menciona o nome do parlamentar foi produzido pela Polícia Civil de São Paulo a partir da análise de grampo de mensagens pelo celular que pegou ‘Marrelo’ e Chebab.
A Polícia Civil deflagrou Alba Branca em janeiro, em missão integrada com o Ministério Público do Estado.
A investigação aponta para o suposto envolvimento do presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, deputado Fernando Capez (PSDB). Ele teria sido contemplado com propina de cerca de R$ 400 mil para sua campanha em 2014. Capez nega taxativamente ligação com o grupo e abriu mão espontaneamente do seu sigilo bancário e fiscal.
Alba Branca investiga, ainda, o ex-chefe de gabinete da Casa Civil do governo Geraldo Alckmin, Luiz Roberto dos Santos, o ‘Moita’, e o ex-chefe de gabinete da Educação do Estado, Fernando Padula.
A base da organização criminosa ficava no município de Bebedouro, interior do Estado. Na cidade funcionava a Coaf, cooperativa de agricultura familiar que se infiltrou nas administrações municipais para corromper gestores e servidores públicos – as prefeituras compravam produtos da COAF porque são obrigadas por !eí a gastar 30% das verbas recebidas do Fundo Nacional para o Desenvolvimento da Educação (FNDE).
Alba Branca pegou conversa de 16 de julho de 2015 entre Chebab e César ‘Marrelo’ – o primeiro, ex-presidente da Cooperativa COAF, o segundo ex-vendedor e representante da Cooperativa.
No diálogo, Chebab e Bertholino falam de Russomanno. “César relata que vai numa reunião com Celso Russomanno, pretenso candidato à Prefeitura de São Paulo, que teria pleiteado apoio a Leonel Júlio, ex-deputado cassado que também gerenciou e recebeu valores nos contratos da COAF e também pai de Marcel”, diz o documento.
Leonel Júlio presidiu a Assembleia Legislativa de São Paulo em 1976 pelo antigo MDB – naquele ano, ele perdeu o mandato por ato do regime militar porque teve seu nome envolvido no ‘escândalo das calcinhas’ (compra de peças íntimas supostamente com recursos públicos).
Alba Branca revela que o filho de Leonel Júlio, Marcel Júlio, era o lobista número 1 da organização. Pai e filho foram presos por alguns dias. Eles negam a prática de ilícitos.
Uma troca de mensagens, no dia 16 de julho de 2015, entre ‘Marrelo’ e Chebabi foi resgatada-pela Polícia Civil.
‘Marrelo’ escreveu às 17h54: ‘Tô indo lá pro Mané, vamos jantar com Celso Russomanno. Eu e o Marcel. Marcamos às 9 horas.
Chebabi respondeu às 18hs. “Novo parceiro.”
‘Marrelo’: Opaa. O Marcel já tinha conversado com ele. E falado da Coaf prá ele.
Chebabi: Tá forte prá prefeitura.
‘Marrelo’: Ele foi pedir apoio pro Leonel.
Chebabi: Ele é PR.
‘Marrelo’: PRB. Universal.
Chebabi: Cola
‘Marrelo’: Tá com dindim prá gastar. Vai dar duas secretarias pro Leonel. Se ele vier a ser prefeito de SP. Já tá acordado.
COM A PALAVRA, CELSO RUSSOMANNO
O deputado Celso Russomanno (PRB/SP) reagiu com indignação à citação a seu nome no relatório policial.
O candidato à Prefeitura de São Paulo afirmou enfaticamente que não conhece os dois alvos da Operação Alba Branca que mencionaram seu nome em mensagens pelo celular resgatada pela Polícia Civil.
‘Vou oficiar o Ministério Público pedindo apuração irrestrita dos fatos. Estou colocando à disposição do jornal O Estado de S. Paulo e das autoridades o meu sigilo telefônico, fiscal e financeiro para apuração incondicional desta suposta conversa telefônica. Não conheço estes cidadãos, nunca tive contato com eles, nunca encontrei-os pessoalmente. Vou interpela-los judicialmente para que façam prova de que mantiveram algum contato comigo. A quem interessa envolver o meu nome nesse monte de mentira? Faço questão de ir a fundo nessa investigação para saber a mando de quem, ou de qual partido estão tentando sujar o meu nome.’

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20 Comentários

Fascistas “pró-escola sem partido” tumultuam audiência: “Truculência da direita veio à tona”, diz Giannazzi


26 de agosto de 2016 às 17h50

  
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Da Redação
Nessa quinta-feira (25/08), o professor e deputado estadual Carlos Giannazi (PSOL-SP) realizou uma audiência pública na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), para debater os prejuízos causados pelos projetos de lei ‘Escola sem Partido’ tanto no plano estadual quanto no federal.
No decorrer da audiência, porém, um grupo de defensores do projeto tumultuou a reunião.
Embora desde o início da sessão, Giannazi tenha afirmado que garantiria a palavra a todos os participantes, o grupo rasgou material, subiu nas cadeiras, quebrou copo de vidro, agrediu verbalmente o deputado, assim como os professores (mestres e doutores do ensino infantil ao universitário), pedagogos, pais, alunos e demais debatedores que se posicionavam contra o PL.
O parlamentar tentou, inúmeras vezes, retomar os trabalhos, sem sucesso.Giannazi encerrou, então, a audiência.
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Cibele Lima: Um grupo de jovens chegou a ir pra cima da professora aposentada Lisete Arelaro, militante da educação há mais de 40 anos ao lado de Paulo Freire. Com o dedo apontado, tentavam agredi-la verbalmente apenas pelo prazer do deboche
Cibele Lima publicou em sua página no Facebook este relato contundente sobre o que aconteceu na audiência:
Acabo de chegar de uma aula prática sobre como seria uma “escola sem partido”. Porque foi nisso que se tornou a audiência pública iniciada hoje na ALESP – Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo convocada pelo deputado estadual Carlos Giannazi Psol SP. 
A atividade reuniu dezenas de educadores, estudantes e militantes da educação que, contrários ao projeto por razões óbvias, celebravam seu arquivamento na ALESP.
O plenário também estava repleto de pessoas ligadas ao “escola sem partido” (ou a serviço deste). A eles seria reservado direito de fala tal qual qualquer movimento presente, após as falas iniciais da mesa.
Porém, as falas que logo de início escancararam o absurdo do “escola sem partido”, que consiste em um ataque estratégico à democracia e à liberdade de pensamento e expressão.
Isso foi demais para aqueles que não suportam as diferenças e querem homogeneizar a educação.
Sem suportar ouvir opiniões contrárias enquanto aguardavam sua vez de fala, rapidamente o grupo dos fascistas explodiu em gritos e vaias, tirando cartazes e apitos das bolsas e partindo para cima dos membros da mesa.
Subiram nas cadeiras, quebraram copos e arrancaram cartazes do plenário. Transmitiam ao vivo em suas redes sociais o deboche.
Pessoas sem argumentos que apenas repetiam palavras como “Vai pra Cuba” (não sabem eles que os americanos já enchem as ruas cubanas?) ou nos “xingando” de comunistas (e qual o problema em ser comunista? A Constituição que eles dizem defender me garante este direito).
O desrespeito foi tamanho que um grupo de jovens chegou a ir pra cima da professora aposentada Lisete Arelaro, militante da educação há mais de 40 anos ao lado de Paulo Freire, uma das autoras dos artigos referentes à educação na Constituição de 88. Com o dedo apontado, tentavam agredi-la verbalmente apenas pelo prazer do deboche.
Enquanto isso a maior parte do plenário gritava pela volta do debate e o deputado Carlos Giannazi pedia a volta da atividade, garantindo que havia fala garantida a todos.
A própria PM veio perguntar se era necessário retirar os manifestantes, o que obviamente não foi aceito. Não pagamos nossos inimigos na mesma moeda.
A cena tragicômica se estendeu por cerca de 40 minutos até que a audiência foi encerrada em função do autoritarismo daqueles que querem, no grito, impor o silêncio dentro das nossas escolas.
“A truculência da direita veio à tona para exemplificar justamente o que se quer nas escolas com o ‘Escola sem Partido’, ou seja, que não haja o debate de ideias. O grito dos órfãos da ditadura, ouvido quando da interrupção da audiência, é a única forma de expressão mental, e a força física e intimidação, a única maneira de se fazer enganosamente respeitado”, disse Giannazi, argumentando que aquelas pessoas ‘não tiveram uma boa aula de História do Brasil’.
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BARROSO ELOGIA LAVA JATO E CRITICA “ATAQUES” AO MP

Marcos Coimbra: As elites responsáveis pelo ataque à democracia e ao nosso futuro terão saudades de Lula

26 de agosto de 2016 às 14h26

viomundo
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Fotos: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula
O futuro em xeque
O assalto à democracia compromete o nosso amanhã. Algum dia a elite responsável pelo desastre terá saudades de Lula
É difícil imaginar o futuro da democracia no Brasil. Após o que aconteceu nos últimos anos, uma coisa é certa: a reconstrução de um sistema político aberto e pluralista será um processo longo, sujeito a complicações e retrocessos.
O maior desafio será convencer os desfavorecidos de que o caminho eleitoral é efetivamente capaz de atender às suas necessidades e preferências.
A derrubada do governo Dilma Rousseff e a consequente retomada do poder pelas oligarquias pode sugerir a muitos que a solução pelo voto é ilusória. O fim da “mágica brasileira”, que fez com que tantos acreditassem que era possível solucionar sem traumas e rapidamente nossos problemas de desigualdade e injustiça, cobrará um preço elevado.
Na ânsia de reconquistar seus privilégios e reassumir as rédeas do Estado, a elite brasileira age temerariamente. Recusa-se a aprender com nossa própria história e prefere ignorar o que ensina a experiência internacional.
Comparado a outros países igualmente pobres e brutos, o Brasil teve, no fim do século XX e no início do atual, uma trajetória singular. Saiu de uma longa ditadura e incorporou milhões de pessoas ao sistema político, mantendo-se basicamente em paz, apesar de compartilhar níveis de miséria que, em outros lugares, levaram a problemas crônicos de instabilidade e violência.
Em 1989, na primeira eleição presidencial moderna, tínhamos 82 milhões de eleitores, 67 milhões compareceram e 62 milhões votaram em algum candidato. Em 2014, o eleitorado era formado por 142 milhões de pessoas, 115 milhões compareceram e 104 milhões votaram nominalmente.
No curto espaço de 25 anos, o Brasil trouxe 60 milhões de novos atores para dentro do sistema político. Algo semelhante ao total de votantes nas últimas eleições na Argentina, Peru e Colômbia somados, os países de maior eleitorado na América do Sul (e quase cabia ainda o Chile).
Entre nós, a ampliação do eleitorado não se deu apenas em velocidade mais elevada que a de qualquer vizinho, mas em escala várias vezes maior (em intervalo igual, o eleitorado argentino aumentou cinco vezes menos, em termos absolutos).
Na química política, a reação onde entram ampliação acelerada do sufrágio e miséria social persistente costuma produzir faíscas e explosões, na forma de conflitos civis, radicalismo exacerbado, banditismo e fanatismo religioso. No Brasil, nada disso aconteceu. Ao contrário, as novas massas de cidadãos, predominantemente pobres, mantiveram-se fiéis à democracia.
Em retrospecto, não é difícil entender o porquê: com a criação do Partido dos Trabalhadores, constitui-se uma alternativa de representação político-partidária, simultaneamente viável e legítima, que permitiu aos despossuídos imaginar que seus interesses poderiam ser promovidos através do processo eleitoral.
O desempenho de Lula na eleição presidencial de 1989 foi decisivo na consolidação dessa possibilidade. Sua quase vitória sobre Fernando Collor, apesar do jogo sujo do financiamento empresarial e das manipulações da mídia, significou que podia haver esperança. Treze anos depois, a grande maioria do País resolveu apostar nele.
O sucesso de Lula na Presidência demonstrou a tese e produziu o melhor momento vivido pelas pessoas humildes na história brasileira. Por mais que os porta-vozes da elite busquem desconstruí-lo, é sua essa honraria.
As condições materiais que prevaleceram naquele período mudaram, em grande parte por causa de alterações na economia mundial. Dilma, a seu modo e com suas limitações, quis remediá-las, mas foi derrubada tentando.
As elites brasileiras escolheram o caminho que melhor conhecem: a imposição, ao conjunto do País, de suas velhas receitas. Recusam-se, por inépcia intelectual ou preguiça, a nem sequer procurar saídas que mantenham o respeito aos interesses dos mais pobres.
Nesse novo/velho Brasil que querem (re)construir, passando a borracha no que foi feito pelos governos do PT e arrasando a imagem do partido e suas lideranças, acham que voltarão a mandar sem questionamento. Estão prontas a utilizar-se do “pau e circo” do passado, com mais repressão e uso desenfreado da máquina de mistificação dos oligopólios de mídia.
A pergunta é se conseguirão, depois da década petista e tudo que representou. Depois que as camadas trabalhadoras obtiveram acesso às novas tecnologias da informação. Depois que adquiriram, na prática, consciência de seus direitos.
Ninguém é capaz de imaginar o que vem pela frente. Mas é bem provável que, no futuro não muito distante, as elites brasileiras tenham saudade de Lula.

LULA: RELATÓRIO DA PF É “PEÇA DE FICÇÃO”