10/02/2017

Quem são os mortos da crise no Espírito Santo?


por Carolina Ruas, de Vitória (ES)
Após o assassinato de uma transexual, nessa quinta-feira (9), moradores botam fogo em Avenida de Serra, na Grande Vitória. Foto: Marlon Max (TRES16) para Mídia NINJA
Após o assassinato de uma transexual, nessa quinta-feira (9), moradores botam fogo em Avenida de Serra, na Grande Vitória. Foto: Marlon Max (TRES16) para Mídia NINJA
Há duas semanas quem passasse pelas principais avenidas da região metropolitana da Grande Vitória notaria a recente propaganda institucional do Governo do Estado estampando outdoors com o anúncio da redução dos números de violência e saudando a eficácia da gestão em reduzir os números de morte no Espírito Santo.
No entanto, por ironia do destino (será?), apenas nesta semana foram 106 mortos (segundo a polícia civil) desde que a Polícia Militar, apoiada por seus familiares, entrou em greve em todo o estado e as ruas foram tomadas pelo caos do oportunismo de todos os tipos: disputa de gangues, assaltos, saques, bandidos profissionais ou amadores.
Aqui no Espírito Santo, o cenário de Mad Max está montado. Desde sábado, a população está fragilizada sem sair de casa. Não há transporte público, o comércio foi/é saqueado constantemente. As unidades de saúde e grande parte dos serviços foram suspensos até a segurança ser restabelecida. Supermercados e alguns serviços essenciais funcionam em horário reduzido e as filas crescem conforme o tempo passa e as pessoas precisam de suprimentos.
Com a tensão da violência no ar, compartilhada pelas redes indiscriminadamente, outros crimes começam a aparecer: linchamentos públicos, pessoas "de bem" armadas e dispostas a fazer justiça com as próprias mãos. Das varandas dos edifícios dos bairros mais nobres da cidade, ouve-se gritos de 'pega ladrão' evoluindo para 'pode matar' em poucos segundos. Com o Exército e a força nacional nas ruas, aí sim o enredo da distopia fica completo.
O número de 106 homicídios em uma semana é quase seis vezes a média registrada do Espírito Santo. Em outubro do ano passado, em um dos conflitos mais intensos na cidade de Aleppo, na Síria, teve 150 civis mortos em uma semana. Quem são essas pessoas? E suas famílias? Em que condições foram mortas? O governo do Estado, até então, diz que "não é o momento de fazer um balanço", mas vários relatos já dão o tom (e a cor) dessas mortes:
O porteiro voltando do turno, em Vila Velha. Os jovens na pracinha do bairro, em Serra. Uma 'bala perdida', em Vitória. Um deficiente espancado até a morte ao ser confundido com bandido, em Cariacica. Um tiro no peito, em Linhares. Um assalto seguido de morte, em Colatina.
Nesse momento, a população da classe média capixaba instalada nos bairros mais nobres da cidade, aplaude a presença das forças armadas nas ruas e amarga a sensação de enclausuramento dentro de seus apartamentos fechados a sete chaves.
Nos bairros mais periféricos da cidade, porém, há pessoas vivenciando outro nível de violência que vai muito além da privação do espaço público. Gente que está morrendo, minuto a minuto, no fogo cruzado entre gangues, ou confundido com bandido. Gente que não tem segurança privado na porta do seu prédio, que não tem pra quem ligar, com quem contar, que não pode se dar ao luxo de não sair pra trabalhar, mesmo em dias de pânico.
Esse Estado tem na sua capital uns dos melhores IDH's do país, ao mesmo tempo está no topo do ranking de violência contra mulheres, jovens e negros – combo perfeito da vulnerabilidade social brasileira – é o mesmo Estado cujo governo acredita que a melhor estratégia para solucionar a crise da Segurança Pública resultante da paralisação da PM é a chegada da Força Nacional e do Exército às ruas.

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