Sorocaba não dispõe de estrutura que comporte demanda da instituição
Jornal Cruzeiro do Sul
José Antonio Rosa
joseantonio.rosa@jcruzeiro.com.br
Dificilmente, os internos do Vera Cruz que precisarem ser transferidos encontrarão vaga em Sorocaba. A cidade, conforme disse ontem o secretário da Saúde, Ademir Watanabe, durante reunião do Conselho Municipal de Saúde, não dispõe de estrutura para atender a demanda gerada a partir do fechamento do hospital. Na prática, os doentes correm o risco de integrar o que o presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Saúde, Milton Sanches, chamou, no mesmo encontro, de "legião de esquecidos". "Eles podem ser levados para qualquer lugar do País, já que têm de ser tratados. Só que, aqui, não existe espaço disponível", explicou.
Ele informou que soube de comentários segundo os quais estabelecimentos da região não estariam dispostos a aceitar as transferências, em razão do baixo valor pago pelo Sistema único de Saúde (SUS) - pouco mais de R$ 35 dia por paciente. O mais grave, acrescentou, é que os outros dois hospitais mantidos no município deverão, em breve, passar pelo mesmo processo de desinstitucionalização, nome dado à triagem hoje realizada no Vera Cruz.
Dos atuais 430 pacientes do Vera Cruz, cerca de 330, o equivalente a 76%, vieram de outros municípios; os pouco mais de 100 remanescentes (24%) são daqui. Todos têm, no momento, a situação avaliada num trabalho coordenado pela Secretaria Nacional dos Direitos Humanos da Presidência da República, em razão das denúncias de maus-tratos aos quais foram submetidos. Para assegurar que pelo menos os internos de Sorocaba possam ser acolhidos e não tenham de ser deslocados para lugar incerto, o Conselho deve cobrar providências da comissão formada por representantes do Ministério da Saúde, da Secretaria Nacional de Direitos Humanos que trabalha no censo psicossocial dentro da instituição e do governo do Estado.
Além da preocupação com os pacientes, muitos dos quais portadores de anomalias psíquicas consideradas irreversíveis, o Conselho espera obter esclarecimentos sobre o que ocorrerá com os trabalhadores depois que o hospital encerrar as atividades. "São quase 150 profissionais que deverão ser dispensados, e que precisam manter a subsistência das famílias. Não sabemos o que pode acontecer com esse pessoal", disse Milton Sanches.
Os conselheiros não pouparam críticas aos órgãos que conduziram a interdição do Vera Cruz. "Vieram para cá apurar denúncias, montaram um aparato que contou com o apoio da polícia, mas não souberam, depois, explicar como ficará, na prática, a situação da unidade", comentou o presidente do Sindicato dos Médicos, Antonio Sérgio Ismael. O Conselho quer acompanhar o trabalho e reivindicar mais atenção aos doentes e trabalhadores.
"Até hoje, não fomos consultados, ou minimamente informados sobre o que os governos federal, estadual e municipal pretendem. A questão da saúde mental em Sorocaba gravíssima, e não podemos assistir a tudo impassíveis", acrescentou Milton. Como a desativação ocorrerá em dezembro, o problema do Vera Cruz e de outros hospitais psiquiátricos deverá ser resolvido pela gestão que assumir no ano que vem.
Nenhum comentário:
Postar um comentário