“Vocês já viram alguma manifestação de Policial Militar? Não! Dizem que esse é um movimento da polícia e eu fico muito chateada. Sabe por quê? Porque estão dizendo que nós não sabemos pensar”, afirma a mãe aflita de um policial militar, acampada há 3 dias em frente ao Quartel do Comando Geral da PM, em Vitória/ES.
O tratamento dado pelo Estado aos movimentos sociais no Espírito Santo sempre foi de tiro, porrada e bomba. A então “aliada” do governo, a PM, historicamente utilizada como instrumento de combate às manifestações, é agora ignorada em suas reivindicações por reajuste salarial e melhores condições de trabalho.
Por serem militares, são proibidos por lei de fazerem greve – sob o risco de serem presos. Coube aos seus familiares se manifestarem: uma maioria de mães, esposas e irmãs dos policiais. Um grupo peculiar que compõe parte do complexo quadro de atores no xadrez da crise de Segurança Pública do ES.
A Mídia NINJA entrevistou nesta terça-feira (7) diversas representantes do movimento dos familiares dos policiais para entender o que as motiva a se colocar na linha de frente dessa disputa.
O apelo das mulheres que paralisam os quartéis se aproxima da pauta de especialistas em segurança pública e de boa parcela dos policiais, favoráveis à desmilitarização da Polícia. Apesar de negarem o termo – após inúmeras campanhas distorcendo e adulterando o sentido da palavra – o pedido geral das familiares é pelo direito à reivindicação e condições humanizadas de trabalho e de carreira, além de reajustes salariais compatíveis com a inflação.
São inúmeros relatos de policiais que trabalham com revezamento dos coletes à prova de balas, muitas vezes vencidos, que precisam ir de veículo próprio ou de transporte público para o local de trabalho, e a precarização total das instalações e de serviços que teriam como direito, como o Hospital Militar.
“Ser mãe de militar é viver numa tensão constante, de ver meu filho sair nas ruas para enfrentar bandidos com armamento infinitamente superiores as que ele tem. Meu filho já foi foi vítima [de ferimento] no peito. Eu fico com o coração na mão e no final do mês não tem um salário digno, nem que seja pra pagar um plano de saúde, porque o Hospital da Polícia Militar está sucateado. A população não sabe disso”, afirma a familiar A. G, ao segurar seu cartaz de protesto.
Aspectos psicológicos do serviço policial também não são levados em consideração, e os relatos mostram uma realidade fria e de isolamento dos policiais de suas próprias famílias.
“Eu sou esposa de policial, tenho muitos parentes policiais e um pouco da convivência com eles é sofrida. Muitos acabam chegando em casa estressados, psicologicamente maltratados, às vezes não querem conversar, querem ficar retirados no seu canto, por coisas que vivem nas ruas e por coisas que sofrem internamente também, por pressões de cima, do Governo. A convivência acaba sendo pouca, a gente quase não vê eles, meu marido fica 24 horas em serviço. Têm muitos casos de policiais em depressão por conta de todo esse cenário”, diz uma familiar.
O estresse narrado pela parente, não é um caso isolado. A morte de Douglas de Jesus Vieira, de 28 anos, foi um caso que abalou a sociedade em janeiro deste ano. Soldado do Estado do Rio de Janeiro no 24ºBPM, o PM se suicidou ao vivo pelo Facebook dias após reclamar da falta de pagamento do Estado em uma postagem.
“O descaso do Governo com a categoria afeta toda a família. Por exemplo, não tem atendimento psicológico e não tem reciclagem. Reciclagem é que antes deles irem pras ruas tem um treinamento, só que alguns fazem uma única vez na vida. Precisa ter mais preparo, precisa ser mais humanizado. Todos têm o direito de manifestar, eles não tem e isso nos afeta”, afirma outra esposa de policial indignada.
Essas mulheres, em sua maioria negras e pobres, dependentes dos serviços públicos e responsáveis pelo lar, fazem parte da população mais afetada pela precarização dos serviços do Estado e a consequente crise na Segurança Pública capixaba.
Infelizmente, os problemas não serão solucionados somente através do reajuste salarial e da melhoria na qualidade dos serviços básicos, exigidos pelas famílias dos policiais. O esquema que alimenta a violência e envolve elementos como o tráfico, a desigualdade, a criminalidade, a política de drogas, a criminalização dos movimentos sociais e o militarismo, é muito mais complexo e envolve toda a sociedade.
“A gente não quer um bem só pra gente, se qualquer policial tiver uma qualidade de vida melhor, isso vai refletir para toda a população. Isso vai ser pra todo mundo. E não é só essa classe, o Governo tá oprimindo a gente, mas não só a gente, são os professores, médicos, todo mundo”m conclui L.C., também familiar de policiais acampada em frente ao Quartel.
Do outro lado da rua, uma centena de populares começaram a se manifestar contra a paralisação dos PMs e pela volta do policiamento nas ruas. Foram reprimidos pelos soldados do Exército com spray de pimenta e bombas de gás lacrimogêneo.






Nenhum comentário:
Postar um comentário