Pelo menos a metade das altas tarifas de importação (em média, 45%) e a totalidade os subsídios para a exportação de bens manufaturados não eram protecionismo, mas neutralização da doença holandesa, assegurando às empresas industriais brasileiras igualdade de condições na competição internacional.
Depois da abertura, sobraram ainda tarifas, em média de apenas 12%. Agora noticiam os jornais, o governo está empenhado em defender uma maior abertura comercial, enquanto os países ricos estão tomando gradualmente medidas de proteção de suas economias. Por que essa loucura liberal que atinge o Brasil, quando o neoliberalismo está em crise no Ocidente? Por que se ignora a desvantagem competitiva da indústria brasileira e apenas se quer agravá-la? Por falta de uma ideia de nação, pela doença do liberalismo econômico em qualquer circunstância ao invés do equilíbrio entre a coordenação do mercado e do Estado?
Sim, por isso, mas também por incompetência, porque tarifas elevadas se devem não apenas a uma política de proteção à indústria nacional, como a teoria econômica convencional ensina, mas também à política de neutralização da doença holandesa para efeito de mercado, como argumenta o novo desenvolvimentismo.
Para se neutralizar a doença holandesa completamente é preciso estabelecer um imposto de exportação proporcional à sua gravidade (à diferença, em reais, entre o equilíbrio industrial e o equilíbrio corrente – entre a taxa de câmbio que torna competitivas as boas empresas industriais do país e a taxa de câmbio que equilibra a conta-corrente ou conta de transações correntes. Supondo-se que o equilíbrio corrente hoje é de R$ 3,30 por dólar e o equilíbrio industrial, R$ 4,00 por dólar, um imposto de 70 centavos de real por dólar exportado das principais commodities brasileira neutralizaria a doença holandesa.
Como isto não se sabia até meu trabalho de 2009 ("The Dutch disease and its neutralization: a Ricardian approach"), como também não se sabia que as tarifas de importação são uma forma de neutralizar a doença holandesa do ponto de vista do mercado interno, fazendo que as empresas industriais competentes tenham acesso a esse mercado (não ao mercado externo), as pessoas confundem tarifa com protecionismo. Isto é meia verdade. Os Estados Unidos só se desenvolveram porque, até 1939, mantiveram tarifas de importação muito elevadas, mas desde o final do século XIX o que acreditavam ser protecionismo era neutralização da sua doença holandesa.
A indústria brasileira não precisa de proteção, mas para voltar a se industrializar precisa dramaticamente neutralizar a tendência à sobreapreciação cíclica e crônica da taxa de câmbio . Eu aceitaria com alegria uma tarifa média de importação próxima de zero, se o governo estabelecesse esse imposto variável com o preço das commodities, e se colocasse os juros no lugar certo. Com essas duas políticas, a tendência à sobreapreciação da taxa de câmbio seria neutralizada, a taxa de câmbio flutuaria em torno do equilíbrio industrial ou competitivo de R$ 4,00 por dólar, e o Brasil voltaria a se industrializar e a crescer.
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