domingo, 23 de abril de 2017

Dom Pedro Casaldáliga lamenta chacina de Colniza e afirma que governo Temer está em 'posição de guerra contra os pobres'

Da Redação - Isabela Mercuri
22 Abr 2017 - 15:13
Foto: Reprodução / Ilustração

Dom Pedro Casaldáliga
O bispo Dom Pedro Casaldáliga, morador de São Félix do Araguaia que participou, na década de 70, da criação da Comissão Pastoral da Terra expressou sua indignação com a chacina que aconteceu na última quinta-feira (20), na Gleba Taquaruçu, município de Colniza. Em nota, enviada pela Prelazia de São Félix do Araguaia, seus agentes de pastoral, seu bispo dom Adriano Ciocca Vasino e Casaldáliga, ele lamentou que “Vivemos um clima de “Terra sem lei”, uma verdadeira guerra civil em nosso país”.

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A prelazia entitulou a nota de ‘Em Mato Grosso o campo jorra sangue’, e fez questão de criticar o cenário político atual. “Este massacre acontece num momento histórico de usurpação do poder político através de um golpe institucional, com avanços tão graves na perda de direitos fundamentais para o povo brasileiro que coloca o governo do atual presidente Temer numa posição de guerra contra os pobres, isso refletido de forma concreta nos projetos, como as Medidas Provisórias 215 e 759, que violam direitos dos povos do campo e comunidades tradicionais, como também no acirramento do cenário de violações contra as/os defensores de direitos humanos”, diz parte da nota.

Além disso, eles lembraram de outras tragédias que aconteceram no estado de Mato Grosso pelos mesmos motivos, e rememoraram que a região da Gleba Taquaraçu sofre violência desde 2004, há 13 anos. “Neste período, em decisão judicial, a Cooperativa Agrícola Mista de Produção Roosevelt ganha reintegração de posse concedida pelo juiz de Direito da Comarca de Colniza, como anunciada na Nota da Comissão Pastoral da Terra, de 20 de abril deste ano. Em 2007, ao menos 10 trabalhadores foram vítimas de tortura e cárcere privado e, neste mesmo ano, três agricultores foram assassinados”.

Por fim, a nota pede justiça e lembra que, nesta semana, é lamentado também o massacre de Eldorado dos Carajás, que aconteceu em 17 de abril de 1997. “(...) somos surpreendidos por outro massacre no campo, que quer amedrontar, calar as vozes e submeter a dignidade do povo brasileiro”.

Dom Pedro Casaldáliga nasceu na Espanha e foi ordenado bispo em 1971. Desde 1968 vive no Brasil ajudando os pobres. Ele foi um dos fundadores do Conselho Indigenista Missionário, na década de 70, e participou também da criação da Comissão Pastoral da Terra. Foi perseguido pela ditadura, sofreu ameaças de extradição e atentados por defender a teologia da libertação. Atualmente, aos quase 89 anos, o bispo vive em São Félix do Araguaia e, por conta do mal de Parkinson, anda de cadeira de rodas.

A chacina na Gleba Taquaraçu aconteceu na manhã da última quinta-feira (20), e na sexta (21) foram confirmadas nove mortes, sendo três pessoas de Rondônia e três de Guariba.

Leia a íntegra da nota:

EM MATO GROSSO O CAMPO JORRA SANGUE

A Prelazia de São Félix do Araguaia, em reunião com suas/seus agentes de pastoral, seu bispo dom Adriano Ciocca Vasino e o bispo emérito dom Pedro Casaldáliga, na cidade de São Félix do Araguaia - MT, manifesta sua dor, indignação e solidariedade com as famílias assassinadas na Gleba Taquaruçu, município de Colniza – MT, no dia 20 de abril.

Este massacre acontece num momento histórico de usurpação do poder político através de um golpe institucional, com avanços tão graves na perda de direitos fundamentais para o povo brasileiro que coloca o governo do atual presidente Temer numa posição de guerra contra os pobres, isso refletido de forma concreta nos projetos, como as Medidas Provisórias 215 e 759, que violam direitos dos povos do campo e comunidades tradicionais, como também no acirramento do cenário de violações contra as/os defensores de direitos humanos. Diversos políticos expõem abertamente seus discursos de ódio e incitação à violência contra as comunidades que lutam pelos seus direitos. Vivemos um clima de “Terra sem lei”, uma verdadeira guerra civil em nosso país.

Como consequência, o ano de 2016 foi o mais violento dos últimos 13 anos, apontando para uma perspectiva desoladora no campo. E esta situação de Colniza, onde assassinaram inclusive crianças, nos expõe diante dos objetivos de ruralistas que não temem nada para conseguir as terras que buscam.

As famílias de agricultores da Gleba Taquaruçu vêm sofrendo violência desde o ano de 2004. Neste período, em decisão judicial, a Cooperativa Agrícola Mista de Produção Roosevelt ganha reintegração de posse concedida pelo juiz de Direito da Comarca de Colniza, como anunciada na Nota da Comissão Pastoral da Terra, de 20 de abril deste ano. Em 2007, ao menos 10 trabalhadores foram vítimas de tortura e cárcere privado e, neste mesmo ano, três agricultores foram assassinados.

Como estão, neste momento, as famílias que vivem em Colniza? O município já foi considerado o mais violento do país. Sabemos que na região existem outros conflitos de extrema gravidade, como o da fazenda Magali, desde o ano 2000, e o conflito na Gleba Terra Roxa, desde o ano de 2004. A população teme que outros massacres possam acontecer.

Clamamos justiça e que os autores desses crimes sejam processados e punidos. A conseqüente impunidade no campo, fruto da omissão dos órgãos públicos, perpetua a violência.

Na semana em que lamentamos o massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido em 17 de abril de 1997, que vitimou 19 lutadoras e lutadores do povo, somos surpreendidos por outro massacre no campo, que quer amedrontar, calar as vozes e submeter a dignidade do povo brasileiro.

Temos a certeza que o massacre ocorrido jamais roubará os sonhos e as esperanças do povo. E jamais calará a voz das comunidades que lutam.

O sangue dos mártires será sempre semente de JUSTIÇA e VIDA!

São Félix do Araguaia, 21 de abril de 2017

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