segunda-feira, 8 de maio de 2017

Congresso do PT-SP: militância quer debate político e giro à esquerda por Julian Rodrigues

Congresso do PT-SP: militância quer debate político e giro à esquerda
Um Congresso de verdade - como nos velhos tempos. Debate político, polêmicas, acordos e compromissos, sínteses, reflexão, garra e muita paixão. Quem apostava em um encontro morno, com cartas marcadas e maiorias avassaladoras pré-estabelecidas se decepcionou. A militância do PT mais uma vez mostrou sua vitalidade.
Começamos muito bem, com belo ato de abertura, na noite de sexta-feira, 5. Lula e Mujica, Lindbergh e Gleisi. Quadra dos Bancários lotada e entusiasmada com o discurso de Lula, que subiu o tom desafiando a Globo e os protofascistas do “partido da Lava-Jato”. Mujica nos encantou: abriu sua fala criticando a burguesia paulista. Gleisi defendeu a radicalizar e um Partido focado na mobilização social. Lindbergh brilhou e incendiou a militância defendendo uma nova estratégia e um programa de reformas estruturais.
Nesse contexto, fica fácil entender por que não prosperou o engessado formato de Congresso proposto pela maioria.
Na programação original não havia espaço para debate de verdade. Não previram nenhum momento para discutir projetos de resolução. O plenário nem tomaria conhecimento das propostas oriundas dos cinco grupos de discussão, que se realizariam em distintos locais do centro de São Paulo (uma aposta na dispersão e esvaziamento). Ou seja: o encontro teria um mínimo de debates, quase que se limitando à votação – a frio - do presidente estadual, das chapas estaduais e dos delegados nacionais.
Percebendo a manobra, antes da votação do regimento, na manhã de sábado, as chapas de oposição se articularam e propuseram várias emendas. Tal movimentação provocou um recuo da maioria (chapa Construindo um Novo Brasil – CNB).
Foi feito um acordo para que não houvesse grupos, mas se garantisse o debate em plenário durante todo o sábado para discussão dos projetos de resolução das chapas. As propostas com mais de 30% de apoio em plenário seriam remetidas automaticamente à etapa nacional. Além disso, foi garantido um tempo maior para apresentação das chapas ao diretório estadual, das chapas de delegados nacionais e das candidaturas presidenciais na manhã de domingo, 7 de maio.
A apresentação das teses nacionais aconteceu na manhã de sábado, 6.
À tarde, um rico processo de debates aconteceu. Propostas foram feitas, modificadas, votadas. Ocorreram acordos, deslocamentos de posição, intensa movimentação de dirigentes, militantes. Abertura para escuta e convencimento, como sempre acontece em encontros da esquerda plurais e democráticos.
Tanto assim que a proposta de fim do PED (processo de eleições diretas) foi aprovada com a oposição da cúpula da CNB – mas, com apoio de vários delegados a eles vinculados. Uma surpresa agradável para todos que vem batalhando por um Partido mais orgânico, democrático e militante.
 A empolgação tomou conta do plenário. O processo deslanchou e os trabalhos só foram terminar depois das 21h. Houve um outro momento de forte emoção, simbologia e unidade: as mulheres, de todas tendências, ocuparam a mesa e propuseram uma forte resolução contra o machismo e o assédio no interior do Partido que foi aclamada unânime e entusiasticamente.
Mais pluralidade e combatividade
A maioria das propostas aprovadas sinalizam na direção de um PT mais combativo, mais radicalizado, que não faz concessões aos golpistas nem ao tucanato.
A opção pelo fim do PED mostrou que é possível que as pessoas mudem de posição quando há espaço para o debate e para o contraditório.
 Ficou muito claro: a base da CNB também não topa mais um PT frouxo e engessado.
 Talvez isso explique a forte repulsa que parte expressiva da cúpula do campo moderado alimenta quando se fala em encontros de base, em processos congressuais ou mesmo em debates entre chapas e candidaturas. Quanto mais discussão, menor o espaço para essas burocracias autoritárias e recuadas.
Para se ter uma dimensão melhor: nesse ano não houve, pela primeira vez, nem ao menos uma rodada de debates entre candidatos a presidente nas regiões do estado.
O Partido não imprimiu nem fez circular coletivamente as teses das chapas muito menos os manifestos dos candidatos. O presidente eleito, Luiz Marinho só se dirigiu à militância do conjunto do Partido uma única vez: foi no encerramento do Congresso quando teve de apresentar sua candidatura!
O resultado final do Congresso refletiu esse novo momento no PT-SP. No estado-sede da CNB, onde sua hegemonia é mais forte a chapa da tendência alcançou 53% dos votos, muito longe de uma maioria acachapante.
Luiz Marinho, candidato da CNB, fortemente respaldado por Lula, foi sufragado por 64% , mas isso porque contou também com o apoio do Novo Rumo (do deputado estadual José Américo, do líder Zaratini, da vereadora Juliana Cardoso e do presidente Rui Falcão) e da EPS (Esquerda Popular Socialista).
É uma maioria expressiva. Mas vamos lembrar que o presidente que agora deixa o cargo, Emídio de Souza foi votado por avassaladores 92% - patamar semelhante ao obtido por seu antecessor, o atual prefeito de Araraquara, Edinho Silva.
Ou seja: o momento é outro em São Paulo.
 A base petista não topa mais pensamento único ou “patriotismo de tendência”. Muito menos que o Partido seja conduzido por uma única força de forma vertical, distante da luta e da militância.
O Muda PT (esquerda partidária) sai mais forte porque é a segunda força e conseguiu dialogar, ampliar e pautar os debates, junto com o campo OPTEI e a chapa impulsionada por O Trabalho. As candidaturas do Muda PT: Renato Simões (174 ), João Paulo Rillo (132 ) e Ana Lídia (45 ) obtiveram 351 votos entre os 999 delegados.
Apesar de hipotecar seu apoio ao Luiz Marinho, o OPTEI (Novo Rumo + EPS) ajudou a tensionar as posições moderadas e se aliou com a esquerda partidária na quase totalidade das votações. O mesmo vale para a Articulação de Esquerda, que embora tenha apostado em construir sua identidade própria, com chapa e candidatura “puro-sangue” até o final, somou esforços na direção da mudança, em um bloco coeso contra a orientação recuada dos dirigentes da CNB.
Importante registrar o papel que a chapa da qual orgulhosamente participei Primeiramente Fora Temer (Garantia de Luta, Avante, Militância Socialista, dissidentes da EPS) e a candidatura do companheiro Renato Simões a presidente jogaram nessa batalha.
 Apostamos na nitidez programática e, ao mesmo tempo, no convencimento político. Ajudamos a construir os espaços de debate, expondo fraternalmente nossas divergências sem sectarismo, mas sem diluição.
Cabe registrar a firmeza, clareza e também a capacidade de diálogo demonstradas pelo campo Diálogo e Ação Petista, impulsionado pela corrente OT, que ao final fundiu sua chapa com a do OPTE e simultaneamente apoiou a candidatura Renato Simões. Intervieram de forma contundente e não sectária em todo o debate do Congresso ganhando apoios para posições à esquerda.
A candidatura do deputado João Paulo Rillo e a chapa Mudar o PT: oposição pra valer, impulsionada além dele pela Democracia Socialista (DS), deputado Carlos Neder, pelo ex-prefeito Eloi Pietá foi muito bem e acumulou todo o tempo na crítica da maioria e unitariamente se somou às batalhas do campo Muda PT.
O resultado desse fim de semana aponta para uma nova direção e uma nova política para o PT de São Paulo, com uma nova maioria - menos arrogante e menos acomodada. Também elegemos uma delegação mais combativa e politizada que estará presente na etapa nacional do Congresso do PT.
A votação final das chapas foi a seguinte:
Construindo o Novo Brasil SP: 52,8% - (CNB com ex-PTLM, que se integrou ao grupo) : 10 membros na Executiva Estadual
OPTEI pela reconstrução do PT: 19,8% (Novo Rumo, EPS, OT, Alessandra Dadona): 4 na Executiva
Primeiramente Fora Temer: 13,6% (Garantia de Luta, Avante, Militância Socialista, dissidentes EPS): 3 membros na Executiva
Mudar o Partido Oposição pra valer: 10% (Rillo, Neder, Eloi Pietá, Democracia Socialista): 2 na Executiva
A Esperança é Vermelha em SP: 3,7% (Articulação de Esquerda): 1 membro na Executiva
07/05/2017
Julian Rodrigues - Ativista LGBT e de Direitos Humanos, é militante do Partido dos Trabalhadores de São Paulo.

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