domingo, 9 de julho de 2017

Poeta de cordel diz que as oligarquias são 'o grande câncer' do país


Número 130,
LITERATURA E RESISTÊNCIA

Com 30 títulos publicados e 100 mil exemplares vendidos, escritor paraibano lança clássico "Menino de Engenho" em versos de cordel, e defende expressão cultural como frente de luta pela libertação
por Helder Lima, da RBA publicado 09/07/2017 18h18
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Janduhi Dantas: "um dia me deparei com o 'Menino de engenho' na estante e foi aí que veio a ideia da transcrição"
São Paulo – Obra clássica da literatura brasileira, o romance Menino de Engenho, de José Lins do Rego (1901-1957), foi recriado em versos de cordel e publicado em edição produzida com recursos próprios pelo escritor paraibano Janduhi Dantas, um dos principais nomes da literatura cordelista hoje no Nordeste. “Passei mais de um ano no texto. Havia momentos de felicidade, em que o texto fluía e agradava, dava prazer, até mesmo emocionava. Mas tinha em que dava trabalho achar as palavras para as quais houvesse rima e métrica. Dava trabalho, dava dor de cabeça. Tinha que ter paciência”, afirma Janduhi.
O escritor, professor e pesquisador da cultura brasileira tem no currículo duas edições paradidáticas publicadas pela Editora Vozes: As figuras de linguagem na linguagem do Cordel e Lições de Gramática em Versos de Cordel. Ambas mostram a versatilidade da linguagem do cordel para discorrer sobre os mais diversos temas e assuntos, e são também emblemáticas da valorização que essa expressão cultural pode alcançar em obras de interesse a um grande universo de leitores.
Com cerca de 30 histórias publicadas e 100 mil exemplares vendidos, Janduhi, que vive em Juazeirinho, no Seridó paraibano, a 190 quilômetros de João Pessoa, tem a maior parte de seus títulos encontrada no comércio turístico da capital do estado e de outras cidades nordestinas que se identificam com a literatura de cordel.
Seu título A mulher que vendeu o marido por R$ 1,99, como ele próprio diz “um de meus dois trabalhos mais conhecidos”, alcançou a tiragem de 20 mil exemplares e foi referência em um artigo do jornalista Xico Sá em janeiro de 2012: “Na sua crônica de costumes sobre o avanço das mulheres, o poeta conta como uma destemida fêmea resolveu se livrar do seu ébrio e desagradável companheiro, no ano de 2010. A heroína, que no cordel é comparada a Leila Diniz, levou a infeliz criatura à feira e o vendeu a uma velha senhora.”
Como escritor consciente de que não é possível ficar à margem da política, Janduhi vê na persistência da dualidade entre Casa-Grande e Senzala na cultura um dos principais problemas que seguram os avanços em direção a uma sociedade inclusiva. “Penso que sim, que a dicotomia Casa-Grande e Senzala persiste. Penso que o grande câncer do país são as oligarquias. Penso que não conseguimos superá-las, vencê-las ainda. Penso que com oligarquia não dá para ser feliz! As oligarquias são a Casa-Grande do país”, afirma nesta entrevista à Revista do Brasil.
“Particularmente, me motivam as palavras do teatrólogo Plínio Marcos, que dizia que ‘um povo que não ama e preserva suas formas de expressão mais autênticas jamais será um povo livre’. Então estou preocupado com a identidade cultural de meu povo”, afirma ainda Janduhi, que agora trabalha na adaptação de um clássico do cinema para o cordel, mas ainda guarda o projeto em segredo.
Por que a escolha de Menino de Engenho para recriação na literatura de cordel? O fato de José Lins do Rego ser paraibano pesou em sua escolha? Ou foram os 60 anos da morte do escritor?
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Capa do livro clássico em cordel: produção em linguagem popular
Não necessariamente foi isso. Foi mais pelo grande carinho que tenho pelo livro. E sei que muita gente também tem esse carinho. Foi um dos primeiros livros que li, adolescente; lembro-me da emoção que me deu a sua leitura. Ainda hoje é para mim um livro emocionante. Foi a minha descoberta de Zé Lins. Depois dele, fui ler DoidinhoBanguê, o lindíssimo Pureza, até chegar a (que não tenho como ler sem não chorar!) Fogo Morto, que está entre os 10 mais importantes romances da literatura brasileira. Coincidência talvez tenha sido a de estar a obra de Zé Lins tão influenciada pela poesia popular de sua terra. Ele certa vez disse que Os doze pares de França, obra basilar para a Literatura de Cordel, foi o primeiro livro que leu, aos 10 anos. E em outra ocasião disse que “quando imagino os meus romances, tomo sempre como roteiro e modo de orientação o dizer as coisas como elas me surgem na memória, com o jeito e as maneiras simples dos cegos poetas”. Eu tinha feito a adaptação de um conto de Leon Tolstoy para o cordel há pouco tempo, e um dia deparei com o Menino de Engenho na estante e foi aí que veio a ideia da transcrição. 
Menino de Engenho foi o primeiro livro publicado por José Lins do Rego, em 1932. Curiosamente, o romance foi publicado com os próprios recursos do autor, que depois teve uma carreira promissora como escritor. E agora, 85 anos depois, você publica a versão em cordel, também com os próprios recursos, em versão de autor. Essa coincidência significa que alguma coisa não muda neste país?
Na verdade, por um bom tempo, há uns cinco anos, este cordel esteve para ser publicado pela Editora da Universidade Estadual da Paraíba (EDUEPB). Mas era muito grande o número de livros a serem publicados por aquela editora na época, e o cordel acabou não saindo por lá. Com toda dificuldade enfrentada, como escassez de verba para tocar os trabalhos, a direção da EDUEPB já há um bom tempo vem fazendo um trabalho muito bonito, publicando não só professores da universidade, como também escritores diversos da Paraíba, por meio do selo Latus. Tenho publicado por ela adaptação de um conto de Tolstoi, adaptação de Psicose, de Hitchcock, e um cordel que aborda a Revolta de Princesa, estopim da Revolução de 30 em João Pessoa. A editora é, inclusive, ganhadora já de alguns prêmios Jabuti. De qualquer modo, optei pela edição independe do cordel, esperando ver a repercussão do lançamento, para depois ver a possibilidade de nova edição por alguma editora. Por sorte, os autores de cordel conseguem ser mais autônomos (também politicamente), até mesmo pelo custo baixo da edição de um cordel. O baixo custo da impressão de um cordel facilita a sua venda.
Qual foi o principal desafio para transpor Menino de Engenho para o cordel? Quanto tempo você trabalhou nesse projeto?
O que fiz, na verdade, foi tentar dizer em versos o que Zé Lins diz em prosa. Como o texto original é escrito em primeira pessoa, não achei que seria fácil passá-lo para o cordel em terceira pessoa, por exemplo. Achei que isso poderia descaracterizar por demais o original. E assim fui, página por página, sintetizando em versos o que lia, sem perder de vista a necessidade de dar coerência ao texto. Outro dia na TV vi um documentário em que o diretor do clássico Doze homens e uma sentença dizia algo como “a gente se emociona com o que faz antes de emocionar o nosso público”. Me lembrei do processo da escrita do cordel. Passei mais de um ano no texto. Havia momentos de felicidade, em que o texto fluía e agradava, dava prazer, até mesmo emocionava. Mas também havia hora em que dava trabalho achar as palavras para as quais houvesse rima e métrica. Dava trabalho, dava dor de cabeça. Tinha que ter paciência.
Onde já foi lançado Menino de Engenho em versos de cordel? Como faz o leitor de qualquer lugar do país que quiser adquirir um exemplar?
O cordel está sendo lançado em algumas cidades da Paraíba. O primeiro lançamento foi em João Pessoa, no Espaço Cultural José Lins do Rego, onde recebi importante apoio do pessoal que administra o Museu Zé Lins que, além de me convidar para fazer o lançamento lá, dentro das comemorações da “Semana José Lins do Rego”, me fez chegar até uma das filhas do escritor. Na conversa (para mim, uma emoção falar com uma filha de Zé Lins!) que tive com essa filha dele, a dona Cristina, fui informado que os direitos autorais das obras do pai dela pertencem à Editora Record. Posteriormente, tive dessa editora a autorização para publicar o cordel. Tudo isso porque a obra original não está em domínio público. O “cordelivro”, como alguns chamam o cordel no formato de um livro, também foi lançado em Pilar, terra de Zé Lins, e Teixeira. Ainda será lançado em Patos, minha cidade natal, e Sousa, no Centro Cultural Banco do Nordeste (CCBNB). E estamos vendo um lançamento para Natal ainda este ano. As pessoas que queiram adquirir o livro podem fazê-lo pelo meu email: durica5164@gmail.com. Antes que esqueça: há no Youtube pequeno vídeo em que divulgo o cordel: Menino de Engenho em cordel.
Confira animação de apresentação de Menino de Engenho em cordel:
Ainda falando das coincidências entre passado e futuro, a biografia de José Lins do Rego lembra que ele teve seus discursos previamente censurados na Academia Brasileira de Letras, já a partir de sua posse quando afirmou que o então membro da ABL, o ministro do Supremo Tribunal Federal Ataulfo de Paiva, teria chegado à academia “sem nunca ter gostado de um poema”. Hoje, vivemos no Brasil em um Estado de exceção, que se esconde sob o golpe parlamentar que tirou a presidenta Dilma Rousseff do mandato em 2016. Para além de se gostar ou não da ex-presidenta, o fato é são muitos os sintomas de estarmos hoje em um Estado de exceção, como a repressão policial sobre as manifestações contra o governo. O que você pensa, enquanto escritor, da dificuldade de a democracia no Brasil se consolidar?
Penso que a dicotomia Casa-Grande e Senzala persiste. Penso que o grande câncer do país são as oligarquias. Penso que não conseguimos superá-las, vencê-las ainda. Penso que com oligarquia não dá para ser feliz! As oligarquias são a Casa-Grande do país. Em minha cidade natal, Patos, na Paraíba, aos 18, 20 anos, fui quase um dos fundadores do PT, ingressei no partido um pouquinho depois de sua fundação. E minha formação política se deu na Teologia da Libertação (me orgulho disso!), nos Grupos de Jovens do Meio Popular, na Pastoral da Juventude. Lembro-me naquela época de um verso do poeta Pedro Tierra: “Criar sem pedir licença um mundo de liberdade”. Penso que nossa tarefa hoje é achar como se criar esse mundo sem pedir licença a ninguém.
Quantos títulos em cordel você já publicou? Você tem também ideia de quantos exemplares já vendeu em sua carreira?
Tenho mais, ou um pouco menos, de trinta títulos publicados. Chamo de edição cada tiragem que faço de mil exemplares. Tenho cordéis com no mínimo duas edições cada um. O cordel A mulher que vendeu o marido por R$ 1,99, um de meus dois trabalhos mais conhecidos (o outro é Lições de Gramática em Versos de Cordel, publicado pela Editora Vozes), já alcançou uma tiragem de 20 mil exemplares, com direito até a servir de mote para um artigo de Xico Sá. Ao todo, meus cordéis devem estar indo em busca da casa dos 100 mil exemplares vendidos.
A profusão de títulos de cordel é uma grata surpresa que o turista tem ao visitar João Pessoa. Praticamente todo lugar que vende artesanato oferece também cordel e imagino que em outras cidades da Paraíba com apelo turístico a situação se repita. Você diria que o cordel é expressão da identidade da Paraíba? O que diferencia o cordel paraibano do de outros estados no Nordeste?
Cordel é identidade cultural do Nordeste, não só da Paraíba. Não há diferença no cordel de estado para estado. O que há é a grande variedade de gêneros e de temas abordados no cordel. Há o cordel de gracejo (muito procurado pelos turistas), há os clássicos (Leandro Gomes de Barros, Silvino Pirauá de Lima, José Camelo, João Martins de Athayde etc.).
Uma declaração sua de tempos atrás – “Como cordelista, estou preocupado em levar temas de discussão política, tentando despertar a consciência crítica nos jovens estudantes que me leem” – continua atual, você ainda pensa assim? Dá pra dizer que esse seu compromisso é ainda mais importante hoje, diante da crise política e até mesmo de identidade que o país vive?
Nos cordéis que escrevo tento conscientizar politicamente, falar de cidadania com meus leitores (em sua grande maioria, imagino, jovens estudantes); emitir minhas opiniões acerca do mundo, da sociedade em que vivo. Particularmente, me motivam as palavras do teatrólogo Plínio Marcos, que dizia que “um povo que não ama e preserva suas formas de expressão mais autênticas jamais será um povo livre”. Então estou preocupado com a identidade cultural de meu povo. A alma de um povo é a sua cultura. No meu pequeno e simples trabalho de escritor de cordel tenho consciência política do papel que exerço. Com certeza, num momento em que os valores de direita ganham espaço, jogam trevas sobre a vida, é preciso não calar; acender uma luz ou, “em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não deserdamos nosso posto”, como dizia Érico Veríssimo.

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