quarta-feira, 9 de agosto de 2017

“Igual ao que se fazia nas escolas alemãs dos anos 30”, diz advogado; ele pede apuração sobre vídeo de alunos de escola militar saudando Bolsonaro

viomundo

09 de agosto de 2017 às 11h47

  
Em vídeo, alunos de colégio militar no AM chamam Bolsonaro de ‘salvação da nação’
Diante de dois policiais militares, nove filas de alunos do terceiro ano de uma escola estadual em Manaus repetem em coro, com as mãos para trás, o que um dos policiais grita: “Convidamos Bolsonaro, salvação dessa nação/ Nos quatro cantos ouvirão completa nossa canção”.
A cena consta de vídeo gravado no Colégio Waldocke Fricke de Lyra, uma das oito escolas administradas pela PM por meio de um acordo com a Secretaria de Educação do Amazonas.
Ao final, uma aluna em traje militar, dirigindo-se ao presidenciável Jair Bolsonaro (PSC-RJ), diz: “Gostaríamos que o senhor pudesse nos honrar com a sua presença em nossa formatura militar”. Outra aluna completa: “Nosso convite deve-se a sua trajetória ética e o seu compromisso com a educação”.
O vídeo foi distribuído nas redes sociais por Bolsonaro na sexta-feira (4). Ele diz que se trata de um convite “irrecusável”: “Um exemplo de ensino que deveria ser adotado em todas as escolas públicas do Brasil”.
A iniciativa foi classificada de “doutrinação nazifascista de crianças e adolescentes” pelo presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, Glen Wilde Freitas. “É igual ao que se fazia nas escolas alemãs dos anos 1930.”
Freitas, que também é o representante da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), disse que, antes do episódio, já recebeu relatos de alunos expulsos por reclamar da doutrina rígida. Nesta segunda-feira (7), ele solicitou uma explicação ao comando da PM e à Secretária de Educação sobre o convite a Bolsonaro.
Nas redes sociais, um estudante que aparece no vídeo criticou a iniciativa. “Simplesmente não abri minha boca como muitos, escola doutrinada. A comissão de formatura em nenhum momento veio me perguntar se era a favor de fazer o vídeo, simplesmente obrigaram, depois ficaram dizendo que a maioria concordou, só não falo mais porque ainda estudo nessa instituição, não temos mais direito de definir nossa posição política”, escreveu.
No domingo (6), a Folha questionou o comandante da PM, coronel David Brandão, sobre o assunto. Ele prometeu responder no dia seguinte, o que não ocorreu.
A reportagem entrou em contato esta segunda-feira (7) com a assessoria do secretário da Educação, Trone Bentes, mas ele tampouco respondeu à solicitação.
Também foi pedido um comentário ao deputado estadual Platiny Soares (DEM), aliado de Bolsonaro a autor de um projeto de lei inspirado no movimento Escola sem Partido, mas ele também se recusou a comentar.
Conselho de Direitos Humanos diz que colégio militar do AM faz doutrinação nazista e fascista
Alunos de colégio administrado pela PM, em Manaus, aparecem em vídeo chamando o político Jair Bolsonaro de ‘salvação’ da nação. Conselho pediu respostas da PM e Seduc pois conduta viola artigo do ECA
Manaus – O Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana considera uma alusão a doutrinação nazista e fascista o convite feito por alunos do Colégio Waldocke Fricke de Lyra – uma das oito escolas administradas pela Polícia Militar (PM) – ao deputado federal Jair Bolsonaro, para a formatura militar da unidade. Alunos aparecem em um vídeo, divulgado nas redes sociais na semana passada, chamando o político de ‘salvação’ da nação.
De acordo com o presidente do conselho e membro da Comissão Nacional de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Glen Wilde Freitas, a prática divulgada no vídeo afeta os estudantes e os direitos estabelecidos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
“Eles estão fazendo uma lavagem cerebral nos alunos em relação ao candidato Bolsonaro. Eles estão insuflando alunos menores de idade, então nós entendemos que isso também fere o Estatuto da Criança e do Adolescente”, disse.
No vídeo, também publicado no canal do Youtube do político Jair Bolsonaro, com a frase “um exemplo de ensino que deveria ser adotado em todas as escolas públicas no Brasil”, os alunos do terceiro ano aparecem, organizados em fileiras, repetindo palavras ditas por um policial militar (PM). No vídeo, o PM faz com que os jovens repitam frases como “convidamos Bolsonaro, salvação dessa nação” e “nos quatro cantos ouvirão completa nossa canção”.
Glen Wilde Freitas compara a prática com o que era feito por Hitler, na Alemanha. “Nas escolas alemãs, Hitler começou a doutrinar as crianças, que diziam palavras de ordem em relação a Hitler, de que ele era o salvador da nação e que iria livrar a Alemanha. Então com certeza há um paralelo entre a vida de Hitler e Bolsonaro. Eles são parecidos em suas vidas políticas”, afirmou.
Em depoimento publicado na reportagem do Jornal Folha de São Paulo, nesta terça-feira (8), uma das alunas que aparecem no vídeo critica a iniciativa. “Simplesmente não abri a minha boca como muitos, escola doutrinada. A comissão de formatura em nenhum momento veio me perguntar se eu era a favor de fazer o vídeo”, contou.
PM e Seduc sem respostas
Glen Wilde Freitas afirmou que o Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana enviou um ofício ao comando da Polícia Militar (PM) e à Secretaria Estadual de Educação (Seduc) solicitando respostas sobre o fato. Até a tarde desta terça-feira (08), os órgãos não haviam divulgado respostas.
“O artigo 73 da lei 9504 foi violado. Eles praticaram algo que é inapropriado e uma conduta vedada pela lei eleitoral, que é usar um espaço público para prevalecer um candidato. Nesse caso, a improbidade administrativa também foi violada”, disse.
Segundo Glen, o conselho determinou um prazo de cinco dias para os órgãos divulgarem explicações sobre o caso e afirma, ainda, que após o prazo existe a possibilidade da abertura de um inquérito por parte do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana.
Correção: O Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana é independente no Estado e não tem ligação à OAB. O presidente do Conselho, Glen Wilde Freitas, é membro da Comissão Nacional de Direitos Humanos da OAB.

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