terça-feira, 8 de agosto de 2017

Sem estoque de peças, Metrô 'canibaliza' trens para fazer manutenção

GOVERNO ALCKMIN

Sindicalistas afirmam que reaproveitamento de peças pode pôr em risco a segurança da população. Cinco composições viraram almoxarifado e outras seis estão paradas por falta de peças
por Rodrigo Gomes, da RBA publicado 08/03/2016 16h44, última modificação 08/03/2016 17h00
SINDICATO DOS METROVIÁRIOS
canibalização
Cinco composições estão paradas no pátio de Itaquera e servindo de almoxarifado para a manutenção de trens
São Paulo – A Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô), administrada pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB), está utilizando peças de cinco trens parados no pátio de manutenção de Itaquera, zona leste da capital, para realizar consertos em outras composições que necessitam de revisão, segundo o Sindicato dos Metroviários de São Paulo. Para a entidade, essa situação pode pôr em risco a segurança de passageiros e dos trabalhadores. “Determinadas peças que são reutilizadas já estão deterioradas ou desgastadas. Não passam por uma análise minuciosa”, disse o secretário-geral do sindicato, Alex Fernandes.
Os trens que servem de almoxarifado – ou que são “canibalizados”, como dizem os metroviários – são as composições H59, K09, K17, K21 e L43. São modelos mais novos, que entraram em operação em 2010 (frota H) e 2011 (os demais), e a frota K é formada por 25 trens da frota C que foram modernizados – em um pacote de 98 composições modernizadas ao custo de R$ 1,7 bilhão. Além desses, outros seis estão parados por falta de peças para que seja feita sua manutenção.
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Interior dos trens expõe a 'canibalização' sofrida pelas composições: luminárias e bancos removidos
“São 11 trens parados no total, sendo cinco em Itaquera e seis no Jabaquara. E esses acabam sendo 'canibalizados', pois como não há determinadas peças, aproveitam e tiram as peças deles para garantir a operação de outros trens”, relatou Fernandes.
Nos cinco trens que estão sendo “canibalizados” falta tudo, de acordo com o sindicato: painel de operação, freios, bancos, luminárias, fechaduras de portas. Os equipamentos parecem ter sofrido atos de vandalismo, pois, além do desmonte, carcaças, placas de isolamento e fiação ficam expostas no interior dos vagões. Além disso, eles estão em uma área descoberta e ficam expostos às intempéries.
Segundo os trabalhadores, o Metrô está com falta de aproximadamente 3 mil itens no setor de manutenção, dentre os quais, vidros de janelas, portas, fechaduras, lâmpadas, faróis, motores de tração, bancos de passageiros e de operadores, redutores, contrassapatas e até extintores de incêndio. “Essa situação já se arrasta há dois anos”, disse Fernandes.
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Qualquer peça que sirva a outro trem é retirada, mesmo freios e sistemas de tração das rodas
O sindicalista relatou ainda que os trabalhadores do setor de manutenção estão sendo pressionados a liberar os trens para que voltem à circulação, mesmo que não estejam em condições. “No horário de pico, a situação é muito difícil. Os trens já andam muito lotados se tiver a frota toda operando, imagina se falta uma ou duas dezenas de composições”, afirmou o metroviário. Diariamente, entre zero hora e 4h, a equipe de manutenção da empresa realiza a fiscalização e reparos na frota e nos trilhos por onde circulam as composições.
O Metrô opera as linhas 1-Azul (Jabaquara-Tucuruvi), 2-Verde (Vila Madalena-Vila Prudente), 3-Vermelha (Barra Funda-Itaquera) e 5-Lilás (Capão Redondo-Adolfo Pinheiro) com 150 composições. Os 11 trens parados atualmente representam pouco mais de 7% da frota.

Origem do problema

Para os metroviários, a falta de peças para realizar a manutenção dos trens está relacionada a dois fatores: a retirada de milhões de reais do Metrô pelo governador Alckmin, para cobrir o rombo orçamentário de outras áreas, e a aquisição de composições que não têm previsão de quando começarão a circular. “Ficamos nessa situação porque o governo priorizou compras de trens sem necessidade, portas de plataforma que não usa, reformas superfaturadas. E também suspendeu o repasse das gratuidades”, afirmou Fernandes.
Entre as compras consideradas injustificadas pelos metroviários, estão 26 trens novos para a linha 5-Lilás, equipados com o sistema Controle de Trens Baseado em Comunicação (CBTC), que é incompatível com o sistema da via férrea. Essas composições estão paradas há pouco mais de dois anos, distribuídas em vários pátios de estacionamento. Os trens foram comprados por R$ 630 milhões, mas não há previsão de quando vão passar a transportar os usuários.
Além desses, outros 23 trens do monotrilho da linha 15-Prata (Cidade Tiradentes-Vila Prudente), adquiridos em 2010, estão parados por conta dos atrasos na obra, que já está quatro anos atrasada, e hoje conta apenas com 2,1 quilômetros em operação.
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Neste trem, parte do painel de controle que os operadores utilizam também foi retirada
O CTBC é outra aquisição que consumiu grande quantidade de dinheiro, mas ainda não trouxe nenhum benefício à população. Comprado há oito anos, por R$ 700 milhões, o sistema deveria ter substituído o atual ATO, com objetivo de reduzir a distância entre os trens, possibilitando colocar mais carros nas linhas, sem colocar em risco a segurança dos usuários.
O sistema está em operação na linha 2-Verde, desde o dia 13 de fevereiro, mas, segundo os metroviários, vem apresentando problemas constantes e não consegue cumprir o planejado. Alckmin também havia prometido instalar o sistema nas linhas 1-Azul e 3-Vermelha até o final de 2014. Hoje não há previsão de quando isso vai ser feito.
Segundo a RBA publicou no último dia 25, Alckmin deixou de repassar R$ 255 milhões ao Metrô, em dois anos, correspondente aos passageiros com direito a gratuidade. O valor foi revelado a eles por diretores do Metrô, em reunião no Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, no dia 24 de fevereiro. Em 2014 foram R$ 189 milhões, e em 2015, R$ 66 milhões dos R$ 330 milhões previstos (redução de 20%).
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Trens 'depenados' são composições praticamente novas, ou recém-modernizadas
Aos trabalhadores, o Metrô alegou estar em crise financeira. Porém, a companhia acumula resultados financeiros positivos. O lucro líquido da empresa saltou de R$ 28,4 milhões, em 2012, para R$ 76,4 milhões em 2013 e R$ 86,8 milhões, em 2014. Crescimento de 205% em três anos. O lucro de 2015 ainda não foi informado pela companhia.
Além dos problemas operacionais, no início deste ano, os trabalhadores foram surpreendidos por uma série de medidas de economia por parte do Metrô. Os salários, antes pagos no fim do mês, passaram a ser quitados no quinto dia útil do mês seguinte. As férias, cujo prazo ainda não atingiram o limite legal – 11 meses após o vencimento – estão suspensas. A Participação nos Resultados (PR), normalmente paga na totalidade no fim de fevereiro, foi dividida em duas parcelas mensais. A primeira foi paga na semana passada.
A suspensão no repasse das gratuidades é uma tentativa do governo Alckmin de reduzir o déficit nas contas do estado, que no ano passado chegou a R$ 1,38 bilhão.
Procurado, o Metrô não se manifestou até a publicação da reportagem.
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