21/08/2018

“Antes uma família adotiva que o abrigo?”


Cena de Bashú, pequeno estrangeiro (Reprodução)
Marcia H. de M. Ribeiro (*)
É difícil abordar o tema da adoção de crianças institucionalizadas. Ele desperta paixões que perturbam o pensamento. Ficamos comovidos com as estatísticas que evidenciam o desencontro entre o perfil desejado pelos habilitados e a realidade das muitas crianças juridicamente aptas à adoção inseridas em abrigos; escandalizados com a infância inteira vivida em instituições. As pesquisas revelam que a maior parte delas tem dez anos ou mais, pois aos dezoito estaria concluído o dever do Estado – o mesmo que abrigou em nome de bem protegê-las – porque desse ponto em diante são maiores. Não necessariamente emancipadas, tampouco autônomas.
Esses índices têm sido apresentados como argumento para campanhas e projetos de lei que estimulam adoção daquelas crianças crescidas, adolescentes. Sugerem aos interessados ampliação da faixa etária para incluir, às vezes em nome de uma abreviação do tempo de espera na fila da adoção ou de humanitária solidariedade, as que estariam excluídas da categoria bebê, expectativa da maioria. Os mesmos dados podem ser interpretados como representativos de inoperâncias do sistema de justiça e na execução das politicas públicas de proteção e promoção psicossocial da população. Parece evidente quando as pesquisas apontam crescimento no número de crianças abrigadas. Adoção, no entanto, não é panaceia para as fraturas sociais. Não substitui ou exime o poder público de seus deveres para com as famílias e as crianças delas retiradas.
Crescer no abrigo pode ser danoso, é verdade, mas a inserção apressada em família substituta como se fora solução ideal também. A urgência pode levar a se desconsiderar um traço inscrito psiquicamente por uma experiência na infância, que se atualiza no encontro por vezes como barreira intransponível. Isso se constata, por exemplo, nas muitas devoluções não divulgadas de crianças às instituições pelas famílias adotivas. Ou em momentos de desorganização psíquica, interpretada como de responsabilidade exclusiva da criança porque portadora de uma patologia herdada da família biológica. Atribui-se pouco às idiossincrasias do convívio com os guardiões. A devolução de uma criança pode ser traumática para todos os envolvidos tanto quanto constrangê-la em nome do ideal “antes uma família adotiva que o abrigo”. Há elementos discretos da experiência que as estatísticas não revelam, tampouco consideram porque não é de sua função. Por isso também não é prudente tomar um universal matemático como representativo do singular, sob o risco de reduzir uma criança abrigada à categoria toda criança abrigada quer ser adotada. Algumas só querem voltar para casa.
Não é simples construir laços de confiança. Mais complexo quando os vínculos primordiais incluíram grandes violências ou desamparo real. Não conseguimos fazer substituição do passado, ainda que se possa, desde a experiência analítica inventada por Freud, mudar as interpretações sobre alguns acontecimentos. O passado se atualiza nos detalhes do presente, nutre as fantasias e incide sobre os vínculos de amor. Participa no delicado trabalho subjetivo de tessitura de laços de filiação adotivos.
Proponho pensarmos a experiência de adoção como o encontro de estrangeiros. Mesmo para aqueles que compartilham a língua falada uma estrangeiridade recíproca está presente de início, pois cada um de nós está submetido a códigos, costumes, valores distintos e desconhecidos para o outro. Não há ainda referências ou histórias em comum, apenas o desejo, nossa bagagem íntima, pode impulsionar a conexão.
Um filme iraniano de 1989, Bashú, pequeno estrangeiro, dirigido por Barham Beisai é uma obra interessante para pensar a experiência singular de adoção como a aproximação de estrangeiros sensíveis a um encontro. O tempo de laço de amor é posterior. Bashú deve ter onze anos, e recentemente perdeu os pais, a irmã, a casa, a cidade durante um bombardeio num Irã em guerra. Sobreviveu fugindo escondido na boleia de um caminhão e desembarcou num lugar muito desconhecido. Nada lhe é familiar. Está como pequeno estrangeiro desamparado, só no exílio.
No inicio do filme uma cena imprime o tom da narrativa. Quais as condições para começar depois de perder tudo? Bashú dirige palavras pela primeira vez para a mulher que será sua mãe na nova terra, depois de vê-la cantando como e para os corvos. Se ela sabe essa língua outra, parece concluir o menino, pode entender a minha. Conta-lhe então, porque a partir dali sua fala tem destinatária, a história que precede sua chegada. Esse pequeno elemento, uma campesina sabe conversar com pássaros – esses que se deslocam sem se importar com fronteiras – inaugura o encontro que vai se desdobrar, muito depois, em laço de amor. A história de adoção começa em presença física no mesmo ponto em que Bashú, criança exilada, pode deixar de participar como número das estatísticas da exclusão.
(*) Psicanalista, Membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre e do Instituto APPOA.

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