Publicado em 16 setembro, 2018 1:13
pm
Reportagem de Kelly Oliveira,
Pedro Rafael Vilela e Wellton Máximo na Agência Brasil.
O marco da crise financeira internacional
deste século, a quebra do banco de investimentos Lehman Brothers, completa 10
anos hoje (15). Conhecida também como crise do subprime, em referência aos
créditos de alto risco vinculados a imóveis, que foram concedidos em larga
escala e de forma irracional por décadas, esse processo resultou na formação de
uma bolha financeira que explodiu no quarto maior banco de investimentos
norte-americano, que tinha 158 anos.
PUBLICIDADE
O colapso dos mercados mundiais
naquele dia e pelas semanas seguintes foi tão grave que obrigou o Federal
Reserve (FED), o Banco Central dos Estados Unidos, e o Banco Central Europeu
(BCE), a injetar centenas de bilhões de dólares e euros no sistema financeiro.
A crise alastrou-se mundo afora e causou impactos sem precedentes em países
como Grécia, Espanha, Irlanda, Islândia e Portugal. Em todo o planeta, mais de
400 milhões de pessoas ficaram desempregadas na pior crise econômica desde a
Segunda Guerra Mundial, só comparável à quebra da Bolsa de Nova York, em 1929.
Os sinais dos problemas iniciaram-se
em 2007, mas a crise dos subprime teve como início oficial a falência
do Lehman Brothers, em 15 de setembro de 2008, quando a insolvência dos
créditos imobiliários não pôde mais ser disfarçada e o FED não ajudou a
instituição financeira. Na época, as agências de classificação avaliavam com
nota máxima (baixo risco) grande parte dos títulos de contratos de hipoteca dos
tomadores subprime, desconsiderando a renda e a estabilidade dos
mutuários.
As condições de geração da crise
partiram de uma questão localizada, no sistema de hipoteca imobiliária dos
Estados Unidos, segundo o economista Reinaldo Gonçalves, professor titular da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). No entanto, a globalização
financeira elevou as consequências para uma escala planetária. “Esses títulos
‘podres’ do subprime foram umas coisas mais inusitadas em 200 anos de
história do sistema econômico moderno. Como a economia americana é o epicentro
do sistema monetário e financeiro do planeta, os impactos foram extremos”,
explica.
Professor de macroeconomia e economia
internacional da Universidade Federal Fluminense (UFF), André Nassif diz que a
crise do subprime é inerente ao próprio capitalismo. Segundo ele, em
épocas de crescimento, como nos anos 1990 e 2000, o mercado exagerou no
otimismo e ignorou riscos. “Dois anos antes do estouro da bolha, em 2006, o
economista Nouriel Roubini [especialista em prever crises financeiras] havia
detectado o excessivo endividamento das famílias norte-americanas e alertado
para o estouro da bolha imobiliária, mas foi ignorado justamente porque a
economia mundial vinha de um ciclo de 14 anos de expansão”, recorda.
Injeções de dinheiro
Gonçalves lembra que, em 2009, por
causa da intervenção estatal do governo norte-americano para salvar o sistema
financeiro, o déficit público da maior economia do mundo subiu a 12% do Produto
Interno Público (PIB). A dívida pública dos Estados Unidos saltou de 55% para
100% do PIB em pouco tempo. Os gastos públicos diretos, em programas de
infraestrutura, de geração de empregos e de salvamento de grandes empresas,
como a montadora General Motors, somaram cerca de US$ 750 bilhões.
Apesar do elevado volume em valores
absolutos, Nassif, da UFF, classifica de tímido o aumento de gastos públicos.
“Para o tamanho do PIB dos Estados Unidos, esse volume [em torno de US$ 750
bilhões] não representou muito”, analisa. Ele relembra que a principal
contribuição para debelar a crise, no entanto, foram os quantitative
easings, injeções de dinheiro pelo Banco Central dos Estados Unidos, que
superaram US$ 10 trilhões. A medida foi repetida pelos bancos centrais Europeu,
do Reino Unido e do Japão.
PUBLICIDADE
Segundo Nassif, embora os livros
tradicionais de economia não recomendem o afrouxamento monetário em momentos de
baixo crescimento e baixa inflação, a experiência dos Estados Unidos só deu
certo porque o dólar, como a principal moeda internacional, melhorou a
competitividade da economia norte-americana. “Por causa da importância do
dólar, as injeções de dólares vazaram para o sistema financeiro global,
desvalorizando a moeda em todo o mundo e aumentando as exportações
norte-americanas”, explica.
Regulação
Paralelamente, o governo
norte-americano reintroduziu a regulação do sistema financeiro, que tinha sido
derrubada a partir dos anos 1980. Em 2010, o governo Barack Obama conseguiu a
aprovação da Lei Dodd-Frank, que impôs obrigações às grandes instituições
financeiras, como alocação de reservas para grandes crises e testes financeiros
de resistência. O atual presidente, Donald Trump, tenta flexibilizar pontos da
legislação sob o argumento de destravar o mercado de crédito no país, que ficou
mais restrito desde então.
Segundo Nassif, a manutenção de
travas que obriguem as instituições financeiras a adotarem medidas de prudência
é essencial para que a especulação financeira não volte a produzir bolhas como
a do subprime. “Crises de estouro de bolhas especulativas ocorreram
diversas vezes ao longo da história. Somente a regulação financeira é capaz de
impedir a valorização de ativos descolada da realidade”, ressalta.
Perspectivas
Com 4,2% de crescimento em ritmo
anualizado em julho (quando o resultado de um mês é projetado para os 12 meses
anteriores) e com desemprego atual em 3,9%, a economia dos Estados Unidos está
plenamente recuperada da pior crise desde a Grande Depressão de 1929. Nassif
diz que a redução de impostos para empresas que entrou em vigor no ano passado
turbinou a economia norte-americana. Ele, no entanto, acredita que o efeito
durará pouco.
“Esse tipo de política, de desonerar
grandes empresas para estimular a economia, é semelhante à praticada no Brasil
no início desta década. Gera resultados no curto prazo, mas resulta em inflação
e baixo crescimento no médio e no longo prazo porque estimula a demanda,
enquanto os empresários entesouram [não gastam na produção] o que deixam de
pagar de impostos”, explica o professor da UFF.

Nenhum comentário:
Postar um comentário