13 de maio de 2016
Por Fernando Caldas
Avante, vamos barrar o golpe
Eu e minha companheira, Bel Frontana Caldas, saímos de São Paulo, na quarta-feira, 11 de maio, em direção a Brasília com uma missão: barrar o golpe. Iríamos invadir o Senado Federal a qualquer custo. Proferir impropérios contra os golpistas e enfrentá-los com palavras, unhas, dentes e gestos radicais. Tomaríamos o plenário e impediríamos a vergonhosa sessão em curso. Quixotes, sonhamos com a insurreição, com o heroísmo revolucionário e com a reunião das forças populares naquele momento decisivo. Tentamos, com nossa matreirice, penetrar no Senado. Mas eles também são espertos. Nosso plano foi para o espaço. Resta-nos, agora, o registro em nossa memória do que ocorreu ali e compartilhar algumas imagens daquele dia vergonhoso.
Triste Brasília
Brasília, em 11 de maio, foi o cenário da tristeza, onde a indignação se fundiu com a impotência. Assistimos à agressividade e à prepotência dos poderes da República se agigantarem em toda a sua extensão. No Congresso Nacional, um amplo esquema de segurança, com tapumes, bloqueios e policiais munidos até os dentes, apartava o povo do palco no qual o golpe se consumaria. Do lado de fora, até o entardecer, uma inquietante calmaria na Esplanada dos Ministérios entorpecia as consciências sobre o assalto tirânico que, em breve, ocorreria. A burocracia, gélida e impessoal, seguia sua rotina em desumana normalidade.
Pouco a pouco, mulheres, homens, jovens, idosos e crianças aglomeraram-se em frente à barreira de policiais. Gente de todas as partes do Brasil. Corpos marcados pelo açoite e pelos mais de 500 anos de exploração e opressão. Índios, negros, trabalhadores do campo e da cidade, sem-teto, LGBT e outros tantos excluídos. Vozes que fizeram ecoar sua revolta nos enormes vazios da capital federal. Vozes covardemente silenciadas pela farta descarga de gás de pimenta e de bombas de efeito moral. Gargantas apertadas e fala embargada. A imposição do silêncio pela força bruta.
Do outro lado, a palavra livre e despudorada do cinismo e da hipocrisia. O rito eloquente dos usurpadores. O grunhido dos canalhas amplificado e transmitido em rede nacional. O regalo das oligarquias, protegidas pelos mármores e pelo concreto armado. A ordem petrificada e a certeza de sua manutenção. Bocas podres expelindo dentes em frente a câmeras de TV, projetando seus caninos e salivando diante da presa acuada. Pobre menina, a democracia. A madrugada de orgia antidemocrática dos donos do poder não surpreendeu os bestalizados da República, apenas confirmou a indigência ética da elite brasileira.
No amanhecer do dia 12, um gosto amargo de derrota. A língua travada pela indignação. Regurgitamos a indigesta vilania e a vergonhosa entrega da ordem de despejo. O poder misógino logrou o afastamento da primeira mulher presidenta do país. A covarde destituição do poder feminino por um bando de saqueadores.
Aqueles que foram barrados no Senado no dia anterior lá estavam, agora, livres e desimpedidos para afagar e estender seus braços à presidenta. As lágrimas que inundaram o Palácio do Planalto colavam seus corpos em abraços apertados e demorados. Recuperamos juntos nossos sorrisos e a disposição de continuar na luta. A dignidade com que Dilma Rousseff enfrentou sua imolação nos fortaleceu a todos. Coração Valente, receba nossa modesta homenagem.
Retirada estratégica
Ao fim de tudo, restou à nossa frente um palácio vazio e algumas mulheres renitentes acorrentadas às grades. Desolados, frustrados, mas inteiramente convictos de que precisamos seguir sonhando e agindo, eu e Bel nos abraçamos por alguns minutos e, silenciosamente, batemos em retirada dessa nossa missão quixotesca. Estejam certos: a aventura continua...
Por Fernando Caldas





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