23/09/2022

Carta manifesto de professoras e professores da UFABC em defesa de Lula presidente já!

 


Em outubro de 2022, o Brasil realizará suas eleições mais importantes desde, pelo menos, o início da Nova República. Como em outras eleições recentes, estão em disputa diferentes projetos de país e de sociedade. Mas desta vez a disputa tem em um de seus polos uma candidatura aberta e explicitamente propagadora do ódio, da violência, da ditadura, dos negacionismos científico, ambiental, sanitário e histórico.

Não é sensato, neste momento, lançar mão de eufemismos ou de falsas simetrias: há um risco desenhado no chão e do lado de lá está o abismo.

Enquanto pesquisadoras e pesquisadores, que atuam como professoras e professores de universidade pública, sabemos muito bem o que está em jogo. Assistimos, ao longo dos últimos anos, à magnitude dos ataques materiais e simbólicos que vêm sendo mobilizados pelo governo Bolsonaro à educação, à ciência, à tecnologia e à cultura. Os efeitos do negacionismo são excessivamente contundentes para negá-los.

Com 682.358 mortes confirmadas em 19 de agosto de 2022, o Brasil é o segundo pior país do mundo em número absoluto de mortes por Covid-19, atrás apenas dos Estados Unidos. Comparando com os países do BRICS, o Brasil tem a mais alta taxa de mortalidade por milhão de habitantes, apresentando, assim, a pior resposta à pandemia dentre os grandes países do Sul Global. Como resultado, apesar de ter apenas 3% da população mundial, o Brasil acumula 11% das mortes pela doença do planeta.

Na área ambiental, o desastre é semelhante. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), o desmatamento da Amazônia cresceu 56,6% durante o governo Bolsonaro, sendo a maior parte deste em terras públicas. Segundo estatísticas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o país quebrou todos os recordes de incêndios florestais, sendo a pior situação no bioma do Pantanal, com 22 mil focos de incêndio e 14% do território queimado em 2020. Uma das consequências mais graves dessa política de destruição ambiental foi o aumento recorde do assassinato de lideranças indígenas e ambientalistas, o que coloca o Brasil como o quarto país que mais mata ativistas ambientais do mundo, entre eles o indigenista brasileiro Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips.

Essas questões se somam a um empobrecimento geral da população, com a redução do poder de compra e o retorno da tragédia da fome. São 33 milhões de pessoas em situação de fome no Brasil, segundo dados deste ano publicados pela Rede de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional. O desmonte das políticas públicas de combate à fome acompanham toda a trajetória do governo Bolsonaro — desde a extinção do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), em 2019, à desarticulação de um conjunto de políticas setoriais e de assistência social e à extinção do Plano Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional e do Bolsa Família. O cenário de destruição das conquistas sociais e a degradação das condições de vida da população brasileira abalam as perspectivas de futuro de muitos e muitas de nossa comunidade interna e externa à Universidade.

Estamos, ainda, diante de constantes ataques à democracia e à liberdade de expressão por parte das ações cotidianas do presidente e de seus apoiadores. As milícias no território e as milícias digitais têm atacado sistematicamente opositores do governo, com um crescimento da violência política — reforçada pelo armamento crescente da população, graças ao incentivo do governo. Diante dos ataques frequentes a jornalistas, Bolsonaro passou a figurar na lista de “Predadores da Liberdade de Imprensa” da organização Repórteres Sem Fronteiras. Os maiores alvos do presidente e de seus familiares e apoiadores são jornalistas mulheres. A militarização da política e as ameaças aos outros poderes se somam ao questionamento das eleições e à desinformação massiva como táticas de comunicação política. Esse conjunto de ameaças transforma um eventual segundo turno das eleições num campo privilegiado para a ação dessas forças antidemocráticas.

No setor de educação, cultura, ciência e tecnologia, os impactos do negacionismo são igualmente trágicos. Em levantamento feito pelo Observatório do Conhecimento, as perdas acumuladas pelo orçamento do conhecimento — que reúne gastos e investimentos com educação, ciência e tecnologia — podem chegar a R$ 100 bilhões entre 2014 e 2022, a maior parte delas no governo Bolsonaro. Para termos uma ideia, em 2021, o orçamento do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações representava 34,4% do orçamento do mesmo ministério em 2014. Considerando o orçamento do MEC, os gastos correntes se reduziram a aproximadamente 20% do dos números de 2014, e os investimentos na expansão do sistema de educação pública não chegam em 2021 a 9% das cifras de 2014.

O resultado dessa política conhecemos bem. Estamos sofrendo com uma brutal falta de verbas para a pesquisa. Nossos salários, congelados desde 2017, estão absolutamente defasados. Muitos docentes de ensino superior pensam em abandonar a carreira, considerando a precariedade das nossas condições de vida e de trabalho. A universidade pública perdeu a sua capacidade de investimento e planejamento, e precisa se defender constantemente de acusações de desvio de função provenientes de um governo que apregoa escolas militarizadas e ensino domiciliar como modelos educativos. O número de inscritos no SiSU foi o menor da história em 2021, acumulando uma redução de mais de 60% desde 2015. A democratização do acesso às universidades públicas também é posta em risco pela redução dos recursos indispensáveis à permanência estudantil. É uma geração inteira que se perde entre a incompetência, a paranoia e o projeto de destruição dos responsáveis pela política de educação; perda que afeta especialmente a juventude negra e periférica.

É à luz desse cenário de caos e destruição, e a partir da comparação deste projeto nefasto com o que já foi feito e com os compromissos assumidos pela candidatura Lula nessas áreas essenciais — saúde, meio ambiente, educação, ciência, tecnologia e cultura e combate à pobreza; com ações como Brasil sem Fome, a retomada do Ministério da Cultura e do Ministério da Mulher, Brasil Sustentável, Mais Universidade, a valorização do salário mínimo, a retomada do Bolsa Família, do Farmácia Popular e do Minha Casa, Minha Vida, entre outras — que pedimos não apenas o seu voto, mas, principalmente, o seu urgente, imediato e total engajamento para eleger Lula presidente no primeiro turno no dia 02 de outubro de 2022.

Uma frente de apoio bastante ampla e diversa está reunida em torno da candidatura de Lula. Sabemos que esta não é a única candidatura do campo democrático, mas é a única com condições de derrotar Bolsonaro e de criar as condições para voltarmos a ter um governo que defenda a vida, o meio ambiente, a educação, o conhecimento e a cultura. Muita coisa está em jogo nessas eleições, e a posição de cada um e de cada uma de nós será decisiva. Por isso, juntos e juntas dizemos: é Lula presidente já! Viva a democracia! Viva o povo brasileiro! Viva a educação pública! Vamos juntos e juntas pelo Brasil!

Assinam:

Acácio Sidinei Almeida Santos
Aléxia Bretas
Ana Tereza Lopes Marra de Sousa
Anastasia Guidi Itokazu
Anderson Gabriel Santiago
André Luiz Brandão
André Pasti
Andrea Fernandes de Lima
Antonio Marcos Roseira
Arilson Favareto
Arlene Ricoldi
Armando Caputi
Beatriz Tamaso Mioto
Bóris Marin
Bruna Mendes de Vasconcellos
Bruna Muriel Huertas Fuscaldo
Bruno Nadai
Carlos Eduardo Ribeiro
Carolina Bezerra Machado
Carolina Gabas Stuchi
Carolina Moutinho Duque de Pinho
Carolina Simões Galvanese
Cintia Lima
Cláudia Regina Vieira
Claudio Luiz Penteado
Cristiane Negreiros Abbud Ayoub
Demétrio Gaspari Cirne de Toledo
Diego Araujo Azzi
Eleonora Menicucci
Everaldo Carlos Venancio
Fernanda Cardoso
Fernando Cássio
Fernando Costa Mattos
Flávia da Fonseca Feitosa
Flávio Rocha Oliveira
Flávio Thales Ribeiro Francisco
Francisco Comaru
Gabriel Rossini
Gabriela Farias Asmus
Gilberto Marcos Antonio Rodrigues
Gilberto Maringoni
Giorgio Romano
Guadalupe Maria Abib de Almeida
Igor Fuser
Jeroen Klink
José Luiz Neves
José Paulo Guedes Pinto
Leonardo Freire de Mello
Leonardo José Steil
Lisângela Kati do Nascimento
Loreto Pizzuti
Lucas Tasquetto
Luciana Nicolau Ferrara
Luciana Palharini
Luciana Travassos
Luciana Zaterka
Luis Roberto de Paula
Luiz Antonio Celiberto Junior
Luiz Martins
Marcelo Augusto Leigui de Oliveira
Marcia Alvim
Márcio Pochmann
Marco Antonio Bueno Filho
Maria Caramez Carlotto
Maria Cecília Gomes dos Reis
Maria Gabriela Silva Martins da Cunha Marinho
Maria Luiza Levi
Mariana Mencio
Marinê de Souza Pereira
Matteo Raschietti
Michela Bordignon
Michelle Sato Frigo
Miriam Mesquita Sampaio de Madureira
Muryatan Santana Barbosa
Nasser Daghastanli
Neusa Serra
Olympio Barbanti Jr.
Otto Müller Patrão de Oliveira
Paris Yeros
Patricia Cezario Silva
Patrícia Del Nero Velasco
Paula Braga
Paulo Sérgio da Costa Neves
Paulo Tadeu da Silva
Raquel Fornari
Ramatis Jacino
Ramon Vicente Garcia Fernandez
Regimeire Oliveira Maciel
Renan Lelis
Rodrigo L. O. R. Cunha
Rosana Denaldi
Rosana Pedrosa Pereira
Roseli Frederigi Benassi
Salomão Barros Ximenes
Sandra Momm
Sergio Amadeu
Sidney Jard
Silene Ferreira Claro
Silvana Zioni
Silvia Helena Passarelli
Silvio Carneiro
Simone Rodrigues de Freitas
Sônia Maria Malmonge
Tatiana Lima Ferreira
Thais Tartalha
Valéria Lopes Ribeiro
Valter Pomar
Victor Marques
Vitor Eduardo Schincariol
Vitor Marchetti
Wesley Góis

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