Cenário de destruição na Vila do Sahy, São Sebastião, litoral norte de SP, Fevereiro de 2023
Crédito Juvenal Pereira (sua página Facebook)
Nenhum dos entrevistados entre Boiçucanga e Barra do Sahy, no Litoral Norte de São Paulo, viu ou sabe noticia de uma chuva igual a da lua nova do dia 19 de fevereiro. Madrugada do primeiro dia de carnaval de 2023. índice pluviométrico de 600mm.
Depois de dois longos anos de espera pra cair na folia aconteceu uma tormenta e as fantasias, confetes e serpentinas se encharcaram. Isto é uma figura leve do que aconteceu. Moro no Sertão de Cambury a 3km da rodovia asfaltada. Entre a minha casa e a pista 2 postes tombaram e três encostas escorregaram, mas dava pra passar de carro depois que alguns usuários com facões moto-serras e machados cortaram os galhos e troncos.
Na subida de Cambury para Boiçucanga outras encostas escorregaram e fecharam a Rodovia Rio Santos nos dois sentidos. Só a pé, bike ou moto se chegava em Boiçucanga. A Praça do Por do Sol resistiu bravamente à tormenta mas sofreu algumas escoriações perto da Galeria de Arte.
Voltando por Cambury até a Praia da Baleia pela Alameda Patriarca Antonio Jose Marques (a rua principal de Cambury) outra encosta escorregou no topo da colina. Meia volta até a rodovia indo pra Vila Sahy. Uma curiosidade. Antes era chamada de Vila Baiana pela quantidade de mão de obra vindas da Bahia que ergueram mansões luxuosas e condomínios na Baleia, Barra do Sahy, Juquey, até em Cambury. Alguns eram contratados por gatos e, construindo casas de alto padrão, não tinham onde morar. O contrato de trabalho, quando havia, não dava moradia. Pano rápido. “Vamos pra vila baiana que da pra construir num terreninho”. Isto era voz corrente e ainda continua sendo. Esta mão de obra construiu mansões pra ganhar um “cascalho” e nas na folgas do final de semana construíam, a prestações, as casas de sobrevivência.
O objetivo do rolê jornalístico era ver e documentar o resultado de tanta fúria pluviométrica, os estragos e ir até Barra do Sahy onde teve vitimas fatais. Na entrada da Vila Baiana, melhor Vila Sahy, começa com um lamaçal escorregadio. Eu com os equipamentos ia andando e deslizando pela via. Alguns passantes me ajudavam em situações mais embaraçosas de equilibrio. Entrei no galpão da Verde Escola – Um centro educacional de alto nível que se transformou no rush das operações: Defesa Civil, Bombeiros, Policia Militar, internet, lanches e hospital de campanha. Num outro prédio alguns corpos esperavam os helicópteros pra serem autopsiados em São Sebastião ou São Paulo e depois liberados para o fúnebre destino dos cemitérios e a despedida de familiares e amigos.
Depois de ver e fotografar as atividades do centro perguntei onde era o lugar mais comprometido com a correnteza e o deslizamento. Me disseram “Entra na segunda rua a direita e vai subindo” Fui. A lama cada vez mais intensa e o equilíbrio cambaleante até que achei uma vara de bambu e com as três pernas foi mais facilitada a subida. Outras pessoas me empurraram pra cima, pros lado, puxaram meus braços para subir entre troncos, galhos, carros e móveis enlameados e viscosos. Neste caminhar as pessoas iam descendo com seus pertences e uma aura de PT (perda total). Coisa difícil de mostrar em palavras. Tinham corpos no sopé da encosta mas me abstive desta coragem ou desrespeito de mostrar corpos sem vida.
De repente uma grande operação de resgate entrou em cena. Brigadistas,
Defesa Civil, Bombeiros super equipados, com seus comandantes e soldados se organizavam par subir o morro enlameado a procura de possíveis sobreviventes mas com a certeza que achariam mais mortos.
Juvenal Pereira
Café Cambury deu o suporte da internet e dos pães de queijo



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