28/07/2023

Além das diretrizes de saúde, Bolsonaro ignorou e escondeu relatórios de inteligência que previam caos no Brasil na pandemia

 



Mais de mil relatórios da Abin e do GSI apontavam para milhares de mortes e para colapso da rede de saúde e funerária. Documentos também desaconselhavam o uso da cloroquina

Jair Bolsonaro e covas para mortos por coronavírus
Jair Bolsonaro e covas para mortos por coronavírus (Foto: Agência Brasil | Reuters)
 

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247 - Agentes de inteligência vinculados ao governo de Jair Bolsonaro (PL) produziram mais de mil relatórios sobre a pandemia, projetando um aumento nos números de casos e mortes no Brasil, enquanto o então mandatário ignorava as medidas de combate à Covid-19 e a distribuição de vacinas. Esses documentos foram mantidos em sigilo durante o período entre março de 2020 e julho de 2021. Os relatórios, que contêm carimbos da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), GSI (Gabinete de Segurança Institucional) e algumas vezes não são identificados por autor, reforçam o fato de que Bolsonaro ignorou tanto as recomendações do Ministério da Saúde quanto as informações coletadas pelos agentes de inteligência dentro do próprio Palácio do Planalto, informa a Folha de S. Paulo.

Os documentos elaborados por agentes da Abin e do GSI destacavam a importância do distanciamento social e da vacinação como formas eficazes de controlar a doença. Além disso, os relatórios alertavam sobre a possibilidade de colapso da rede de saúde e funerária no Brasil e desaconselhavam o uso da cloroquina, mostrando estudos que apontavam seus potenciais riscos. Eles também reconheciam a falta de transparência do governo Bolsonaro na divulgação dos dados da pandemia e a lentidão do Ministério da Saúde em definir estratégias de testagem e combate à doença.

A maior parte dos relatórios projetava três cenários de avanço de casos e mortes por Covid-19 no Brasil, classificando-os do mais grave ao menos grave, para um período de aproximadamente duas semanas seguintes. No entanto, Bolsonaro contrariou repetidamente as recomendações dos técnicos de saúde e dos agentes de inteligência, ao promover aglomerações e menosprezar as medidas para evitar a propagação do vírus. Em diversas ocasiões, ele chegou a minimizar a gravidade da doença, referindo-se à Covid-19 como "mimimi".

Os dados efetivamente registrados durante a pandemia se aproximaram das estimativas feitas pela Abin, e em alguns casos, a disseminação do vírus ultrapassou as expectativas dos agentes de inteligência. Em abril de 2021, por exemplo, o número de mortos no Brasil chegou a 341.097, enquanto a projeção feita em março apontava entre 330.216 e 338.558 mortes, nos cenários mais otimista e pessimista, respectivamente.

Os relatórios foram produzidos principalmente para discussões no comitê liderado pela Casa Civil sobre as ações do governo durante a pandemia, mas não eram compartilhados com todos os membros do comitê e apenas chegavam às mãos de assessores de poucos ministros. Integrantes da cúpula do Ministério da Saúde afirmaram desconhecer a existência desses relatórios.

 
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Esses relatórios de inteligência também alertavam sobre os riscos do desgaste político resultante de uma má gestão federal da pandemia. Eles mencionavam que problemas no sistema funerário poderiam impactar negativamente a percepção da população sobre as ações estatais no enfrentamento da pandemia e minar a confiança no governo. Além disso, apontavam o risco de boicotes internacionais ao Brasil devido à falta de transparência nos dados sobre a Covid-19.

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid não recebeu os documentos da Abin, apesar de ter solicitado previsões do governo sobre a pandemia. O governo Bolsonaro justificou a negativa de acesso aos documentos alegando que eles eram apenas instrumentos de estudo e, portanto, não deveriam ser divulgados.

Desde o início da pandemia até agora, o Brasil registrou 704.659 mortes por Covid-19 e 37.717.062 casos, de acordo com o Ministério da Saúde.

Mais de 1.100 desses documentos foram disponibilizados ao jornal após várias solicitações baseadas na LAI (Lei de Acesso à Informação). Enquanto a gestão passada de Bolsonaro negou o acesso aos documentos da Abin e do GSI, a gestão do presidente Lula (PT) mudou a postura e passou a apresentar esses papéis a partir de maio. Bolsonaro, bem como os ex-ministros Braga Netto (Casa Civil) e Eduardo Pazuello (Saúde), não quiseram comentar sobre os relatórios.

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