05/07/2025

SEDUC-SP GASTA QUASE R$ 500 MILHÕES EM PLATAFORMAS SEM MELHORAR RESULTADOS EDUCACIONAIS




Nota Técnica questiona punições a professores e diretores escolares pelo não atingimento de metas de uso de plataformas, diante da comprovada ineficácia pedagógica das ferramentas digitais adquiridas pelo governo de São Paulo desde 2024

SÃO PAULO – O Grupo Escola Pública e Democracia (Gepud) e a Rede Escola Pública e Universidade (REPU) lançam hoje (3) a Nota Técnica “Plataformização e controle do trabalho escolar na rede estadual paulista”, documentando impactos e custos da obrigatoriedade do uso de ferramentas digitais pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP). O estudo aponta que as plataformas trazem significativos prejuízos à qualidade do trabalho pedagógico, à autonomia docente e à gestão das escolas estaduais, além de questionar a efetividade pedagógica e os altos custos da adoção massiva dessas ferramentas digitais.

Com base em documentos oficiais, em relatos de profissionais da rede estadual e em dados obtidos da Seduc-SP via Lei de Acesso à Informação, a Nota Técnica aponta que o uso indiscriminado e obrigatório das plataformas nas escolas estaduais vem induzindo o registro fictício de presença de estudantes pelas escolas, o preenchimento burocrático de tarefas em detrimento de aulas planejadas, além de gerar ameaças e punições a educadores que não atingem as metas de utilização estipuladas para as plataformas.

VIGILÂNCIA, SOBRECARGA DE TRABALHO E PUNIÇÕES A PROFESSORES E DIRETORES

O estudo revela que a plataformização do ensino na rede estadual tem ampliado a carga de trabalho sobre professores e gestores a níveis insustentáveis, consumindo parte significativa do tempo de preparação das aulas e de acompanhamento dos complexos processos da gestão escolar.

Questionados sobre os impactos das plataformas, professores da rede estadual relatam aumento do trabalho burocrático, perda da autonomia pedagógica, assédio institucional para o atingimento de metas e indução a práticas de manipulação de registros (presença de estudantes ausentes, simulação de tarefas etc.) – em vista do estabelecimento arbitrário, por parte da Seduc-SP, de metas de uso das plataformas que incluem tempo de acesso, quantidade de exercícios entregues, vídeos assistidos, tempo de leitura de textos, entrega de redações etc.



FRACA RELAÇÃO COM RESULTADOS DE APRENDIZAGEM

Além da sobrecarga de trabalho, a Nota Técnica questiona a eficácia pedagógica das plataformas. Uma análise comparativa dos resultados das escolas estaduais paulistas no Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp) entre 2023 e 2024 revela que não há relação consistente entre o uso intensivo das plataformas e a melhora do desempenho das escolas na avaliação estadual. Escolas com altos ou baixos índices de uso das plataformas apresentaram melhoras de desempenho semelhantes no Saresp.



CUSTOS ELEVADOS, RETORNO INCERTO

A análise de documentos públicos relacionados aos processos de contratação das plataformas indicam que as decisões de compra não tiveram qualquer fundamentação pedagógica, e apenas atribuíram às plataformas a capacidade de melhorar resultados educacionais – tese que o estudo lançado hoje refuta. Além disso, essas decisões jamais contaram com a participação dos educadores da rede.

Em 2024, o governo de São Paulo desembolsou mais de R$ 471 milhões em plataformas digitais para uso obrigatório nas escolas estaduais, baseando-se no argumento de que esse uso promoveria melhoria de resultados em avaliações externas.
Diante da inexistência de correlação entre a melhora de resultados educacionais e o uso das plataformas, e diante dos impactos profundamente negativos do condicionamento de punições a educadores ao atingimento de metas de uso de plataformas, os pesquisadores concluem que, longe de constituírem ferramentas de apoio pedagógico, as plataformas têm servido unicamente como instrumentos de controle centralizado de todos os aspectos da vida escolar. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário