Desde 2023, o Conselho
Municipal de Educação (CME) dialoga com o Departamento de Educação e Cultura
(DEC) de São Roque sobre as razões pedagógicas que levaram o município a adotar
o material didático (apostilado) do SESI (Serviço Social da Indústria).
O questionamento surgiu a
partir de reclamações que chegaram a este Conselho alegando que o material
didático do SESI não conversa diretamente com o currículo elaborado pela
própria Rede de Ensino de São Roque no período de 2017-2019; de ser um material
que exige conectividade e acesso regular à internet, aspectos não ofertados por
muitas escolas públicas da cidade; e por ser desnecessário devido à oferta
gratuita de livros didáticos do Programa Nacional do Livro e do Material
Didático (PNLD) do governo federal.
O DEC argumentou que o
material foi adquirido por iniciativa do prefeito, pois constava no seu Plano
de Governo. O Conselho verificou o Plano encaminhado ao Tribunal Eleitoral em
meados de 2020 e não encontrou nenhuma referência à aquisição de material
apostilado. Também se argumentou, por parte do Departamento, que as
capacitações/formações disponibilizadas às educadoras e aos educadores pelo
SESI contribuíam para melhorar a qualidade de ensino.
Com a publicação do
resultado do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), dado oficial
do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP)
do Ministério da Educação (MEC) em 2024, referente ao ano de 2023, o CME
preocupou-se com a suposta melhora nos indicadores. A publicação trouxe cenário
diferente. Nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental (1º a 5º ano), São Roque
deixou de alcançar as metas mínimas desde 2015.
Verifica-se facilmente no gráfico que a cidade de São Roque encontra-se abaixo do estado de São Paulo e de municípios da região (vide os dados abaixo), com uma nota de 5,7.
Fonte: Giro Oeste
Nos Anos Finais do Ensino
Fundamental (6º ao 9º ano), os dados reafirmam o declínio na qualidade de
ensino na Rede de Ensino de São Roque.
Diante desse quadro, o
Conselho solicitou a análise técnica que embasou a compra do material didático
do SESI. O DEC informou que o material foi adquirido pela modalidade
inexigibilidade técnica, que se refere às situações em que a competição é
inviável, seja pela exclusividade de fornecimento do objeto ou pela escassez de
empresas que possam concorrer e atender às necessidades da Administração
Pública.
Também se questionou a
avaliação por parte do DEC sobre a qualidade e aceitação do material didático
do SESI, porém, até meados de 2025, esse estudo ainda não havia se
concretizado. Assim, o CME propôs um questionário elaborado pelas conselheiras
e conselheiros - e corrigido pelo Departamento de Educação e Cultura. Diante de
possível desconforto por parte do DEC na aplicação do formulário, o Conselho
encaminhou, via e-mail e grupos de WhatsApp de educadoras e educadores,
questionário com 28 perguntas (quase todas fechadas), que deveriam ser
respondidas entre 31 de julho e 8 de agosto de 2025.
Mesmo em um tempo curto
(uma semana) e sem o apoio institucional do Departamento de Educação e Cultura,
92 educadoras e educadores de mais de 15 unidades escolares atenderam a demanda.
Análise dos Dados
O questionário utilizou-se da plataforma do google.forms a partir de link compartilhado às educadoras e aos educadores. Composto por 28 perguntas (somente 3 abertas), trouxe o seguinte texto de apresentação:
A partir de 2022, a Rede de Ensino da Estância Turística do Município de São Roque adotou o material didático do SESI. Como a introdução desse sistema apostilado não foi previamente apreciado, levando-se em conta os aspectos pedagógicos e práticos, o Conselho Municipal de Educação (CME), a partir de elogios e reclamações sobre a qualidade e funcionalidade do material, e da falta de avaliação regular por parte do Departamento de Educação e Cultural; elaborou o presente questionário que subsidiará relatório para embasar renovação e/ou interrupção do convênio junto ao SESI.As informações obtidas por meio deste formulário não serão divulgadas de forma a possibilitar a identificação do educador e da educadora, pois os resultados serão examinados quantitativamente, isto é, apenas a quantidade de respostas interessa aos proponentes, não a identidade de participantes.
Diante disso, solicitamos que respondam este formulário até o dia 08 de agosto de 2025.
A Rede de Ensino de São Roque possui cerca de 650 professoras e professores que atuam no Ensino Fundamental. Desses, 92 responderam o questionário, compreendendo percentual de quase 15% da totalidade do contingente.[1] Em outras palavras, mesmo com as intempestivas adversidades, a pesquisa alcançou significativo universo.
Fonte: Produção Própria.
Dos respondentes, 2/3
atuam no Ensino Fundamental I e mais de 50% trabalham na Rede de Ensino de São
Roque há mais de 10 anos.
Fonte: Produção Própria.
Como
as respostas vieram, especialmente, de profissionais que atuam nos Anos
Iniciais do Ensino Fundamental, a formação/habilitação predominante é em
Pedagogia. Mas as outras disciplinas da Educação Básica se fizeram representadas:
Educação Física, Letras-Português, Inglês, Ciências Biológicas, História,
Matemática, Geografia, Física, Artes e Ciências Sociais. Chamou a atenção que
muitas professoras e professores que atuam na Rede de Ensino de São Roque
possuem duas ou três formações no ensino superior, indicando sólida trajetória
acadêmica.
Quando
se adota um novo material didático numa unidade escolar ou rede, sugere-se que
se apresente os seus autores e suas autoras, e que a linha de pensamento
pedagógico seja divulgada aos docentes. Isso, segundo a pesquisa, não ocorreu
no município de São Roque.
Fonte: Produção Própria.
Nas
perguntas estritamente pedagógicas, as respostas foram predominantemente
“Parcialmente” ou negativa. Questionados se “No seu componente curricular, os materiais
didáticos do SESI utilizados na Rede de Ensino de São Roque apresentam uma
sequência/estrutura lógica?”, responderam que:
Fonte: Produção Própria.
Na
pergunta se “No seu componente curricular, o conteúdo disponibilizado pelo
material didático do SESI é complementado pelo conteúdo do ano seguinte,
deixando a progressão do aprendizado mais fluida?”, quase 50% de docentes
responderam que não, colocando em dúvida a proposta pedagógica do material
didático em questão, pois uma das características de bons livros para o Ensino
Fundamental é a garantida de continuidade do processo de ensino aprendizagem.
Fonte: Produção Própria.
Ainda
sobre os pontos negativos do material didático do SESI adotado na Rede de
Ensino de São Roque, quase 50% de docentes responderam que as abordagens de
conteúdo e atividades do material didático do SESI não são condizentes com o
nível de ensino proposto.
Fonte: Produção Própria.
Nessa
mesma linha, 63% responderam que o material didático do SESI não apresenta
linguagem adequada à faixa etária.
Fonte: Produção Própria.
Sobre
os pontos positivos do material didático do SESI, os respondentes acentuaram
que os conteúdos apresentados são atuais, contextualizados e os dados evocados
são válidos.
Fonte: Produção Própria.
Quase
70% das pessoas que responderam indicaram que o material didático do SESI
apresenta atividades extraclasse, item essencial no processo de ensino
aprendizagem.
Fonte: Produção Própria.
Sobre
a questão que trata da coerência conceitual e metodológica, com indicação das
referências bibliográficas do material didático do SESI, quase 50% de docentes
responderam que atende parcialmente.
Fonte: Produção Própria.
As
respostas indicaram ainda que o material didático do SESI não apresenta erros
gramaticais.
Fonte: Produção Própria.
E que sua principal
qualidade está no acionamento de conteúdo virtual.
Fonte: Produção Própria.
Ao
mesmo tempo, quando questionado se “Sua unidade escolar apresenta condições
materiais (exemplo: internet, laboratório, computadores/notebooks, etc.) que
potencializam a aplicação do material didático do SESI?”, quase 50% de docentes
indicaram que não. Um dos problemas sugestionados por educadoras e educadores
que motivou o Conselho a realizar a presente pesquisa foi, justamente, o
disparate entre a proposta pedagógica do material didático do SESI e as
condições materiais objetivas de trabalho, especialmente a falta de
conectividade, aparelhos de informática insuficientes e oscilação da internet
em diferentes unidades de ensino.
Fonte: Produção Própria.
Em
2023, o DEC argumentou que a parceria com o SESI contribuía com a
capacitação/formação docente. Porém, as respostas colhidas no questionário não
indicam isso. Sobre a pergunta: “O material de apoio ao(à) professor(a) oferece
sugestões de abordagens e atividades que ajudam no momento do preparo e prática
das aulas?”, 60% responderam que parcialmente; e 27% que não.
Fonte: Produção Própria.
Referente à qualidade das capacitações oferecidas pelo SESI, somente 35% responderam que são Ótimas e Boas.
Fonte: Produção Própria.
A
pergunta: “Sobre as capacitações oferecidas pelo SESI, contribuíram para
melhorar a sua prática docente?”, reafirma o item acima.
Fonte: Produção Própria.
Sobre
o cumprimento da legislação educacional vigente, de maneira predominante, os
respondentes indicaram que o material didático do SESI atende:
a) Base Nacional Comum Curricular (BNCC):
Fonte: Produção Própria.
b) Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) e Lei 9.394 de 1996 (LDB):
Fonte: Produção Própria.
c) Lei nº 11.645/2008, que torna obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena nos currículos escolares:
Fonte: Produção Própria.
Contudo,
quando confrontados com a pergunta: “A metodologia dos materiais didáticos do
SESI é compatível com o Projeto Político Pedagógico (PPP) da sua unidade
escolar?”, mais de 45% responderam que não, validando a questão sobre a não
apresentação dos autores e autoras do material previamente; e a falta de
integração pedagógica com as demais atividades de ensino aprendizagem
programadas pela unidade escolar.
Fonte: Produção Própria.
Sobre
a coerência entre a proposta curricular do material didático do SESI e o
currículo desenvolvido pela Rede de Ensino de São Roque durante os anos de 2017
e 2019, 60% responderam que não há correlação direta.
Fonte: Produção Própria
Perguntado sobre “a relevância do material didático do SESI adotado pela Rede de Ensino de São Roque para tornar o processo de ensino aprendizagem significativo no último ano?”, mais de 70% deram uma nota abaixo de 5 (de 1 a 10).
Fonte: Produção Própria.
Confrontados
com a questão se “gostaria de receber o material didático do SESI em 2026?”,
quase 90% dos docentes responderam que não.
Fonte: Produção Própria.
Por
conseguinte, o material didático do SESI, que está na rede desde 2022 e
rivaliza com os livros didáticos encaminhados gratuitamente pelo governo
federal, não é utilizado de forma generalizada. Perguntados sobre o seu uso,
quase 80% dos docentes deixaram de utilizá-lo com frequência.
Fonte: Produção Própria.
A
última questão era aberta e produziu uma enormidade de respostas e
possibilidades. Diante disso, e devido a brevidade de tempo, produzimos uma
nuvem de palavras para indicar, sumariamente, termos fortes sobre a adoção do
material didático do SESI na Rede de Ensino de São Roque.
Optou-se por não instituir nenhum filtro, inclusive de termos conectivos. Independente disso, nota-se algumas constâncias, principalmente a reclamação sobre o problema de aplicabilidade, devido à linguagem complexa para a faixa etária e ao baixo nível sociocultural dos estudantes; e a falta de conectividade nas unidades escolares, com a internet oscilando. Também apontaram a ausência de estrutura material, com poucos computadores para atender os discentes.
Conclusão
Mesmo num tempo curto, a pesquisa atingiu quase 15% das educadoras e dos educadores da Rede de Ensino de São Roque; e revelou a temeridade de se adquirir material didático sem análise técnico-pedagógica e um franco diálogo com os profissionais que atuam em sala de aula.
Pontos
positivos foram ressaltados sobre o material didático do SESI, especialmente a
proposta de conectividade e as atividades extraclasse, porém, muitas escolas de
São Roque não possuem, segundo a pesquisa, condições materiais objetivas para
concretizar o potencial das apostilas do Sistema SESI. Talvez por isso,
docentes da rede não enxerguem razão para continuar a parceria.
Sugere-se
um diálogo direto e franco com as educadoras e os educadores da Rede de Ensino
de São Roque antes de tratativas para um novo contrato para o ano escolar de
2026.
Conselho Municipal de Educação de São Roque (CME-SP)
[1] Os dados informes (não tratados) estão em posse do CME-São Roque.

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