20/08/2025

SÃO ROQUE: Conselho de Educação fez pesquisa sobre o material didático do SESI. Veja o resultado


Desde 2023, o Conselho Municipal de Educação (CME) dialoga com o Departamento de Educação e Cultura (DEC) de São Roque sobre as razões pedagógicas que levaram o município a adotar o material didático (apostilado) do SESI (Serviço Social da Indústria).

O questionamento surgiu a partir de reclamações que chegaram a este Conselho alegando que o material didático do SESI não conversa diretamente com o currículo elaborado pela própria Rede de Ensino de São Roque no período de 2017-2019; de ser um material que exige conectividade e acesso regular à internet, aspectos não ofertados por muitas escolas públicas da cidade; e por ser desnecessário devido à oferta gratuita de livros didáticos do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) do governo federal.

O DEC argumentou que o material foi adquirido por iniciativa do prefeito, pois constava no seu Plano de Governo. O Conselho verificou o Plano encaminhado ao Tribunal Eleitoral em meados de 2020 e não encontrou nenhuma referência à aquisição de material apostilado. Também se argumentou, por parte do Departamento, que as capacitações/formações disponibilizadas às educadoras e aos educadores pelo SESI contribuíam para melhorar a qualidade de ensino.

Com a publicação do resultado do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), dado oficial do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) do Ministério da Educação (MEC) em 2024, referente ao ano de 2023, o CME preocupou-se com a suposta melhora nos indicadores. A publicação trouxe cenário diferente. Nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental (1º a 5º ano), São Roque deixou de alcançar as metas mínimas desde 2015.

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Verifica-se facilmente no gráfico que a cidade de São Roque encontra-se abaixo do estado de São Paulo e de municípios da região (vide os dados abaixo), com uma nota de 5,7.

Fonte: Giro Oeste 

Nos Anos Finais do Ensino Fundamental (6º ao 9º ano), os dados reafirmam o declínio na qualidade de ensino na Rede de Ensino de São Roque.

 

Diante desse quadro, o Conselho solicitou a análise técnica que embasou a compra do material didático do SESI. O DEC informou que o material foi adquirido pela modalidade inexigibilidade técnica, que se refere às situações em que a competição é inviável, seja pela exclusividade de fornecimento do objeto ou pela escassez de empresas que possam concorrer e atender às necessidades da Administração Pública.

Também se questionou a avaliação por parte do DEC sobre a qualidade e aceitação do material didático do SESI, porém, até meados de 2025, esse estudo ainda não havia se concretizado. Assim, o CME propôs um questionário elaborado pelas conselheiras e conselheiros - e corrigido pelo Departamento de Educação e Cultura. Diante de possível desconforto por parte do DEC na aplicação do formulário, o Conselho encaminhou, via e-mail e grupos de WhatsApp de educadoras e educadores, questionário com 28 perguntas (quase todas fechadas), que deveriam ser respondidas entre 31 de julho e 8 de agosto de 2025.

Mesmo em um tempo curto (uma semana) e sem o apoio institucional do Departamento de Educação e Cultura, 92 educadoras e educadores de mais de 15 unidades escolares atenderam a demanda.

Análise dos Dados

          O questionário utilizou-se da plataforma do google.forms a partir de link compartilhado às educadoras e aos educadores. Composto por 28 perguntas (somente 3 abertas), trouxe o seguinte texto de apresentação:

A partir de 2022, a Rede de Ensino da Estância Turística do Município de São Roque adotou o material didático do SESI. Como a introdução desse sistema apostilado não foi previamente apreciado, levando-se em conta os aspectos pedagógicos e práticos, o Conselho Municipal de Educação (CME), a partir de elogios e reclamações sobre a qualidade e funcionalidade do material, e da falta de avaliação regular por parte do Departamento de Educação e Cultural; elaborou o presente questionário que subsidiará relatório para embasar renovação e/ou interrupção do convênio junto ao SESI.
As informações obtidas por meio deste formulário não serão divulgadas de forma a possibilitar a identificação do educador e da educadora, pois os resultados serão examinados quantitativamente, isto é, apenas a quantidade de respostas interessa aos proponentes, não a identidade de participantes.
Diante disso, solicitamos que respondam este formulário até o dia 08 de agosto de 2025.

Conselho Municipal de Educação de São Roque

           A Rede de Ensino de São Roque possui cerca de 650 professoras e professores que atuam no Ensino Fundamental. Desses, 92 responderam o questionário, compreendendo percentual de quase 15% da totalidade do contingente.[1] Em outras palavras, mesmo com as intempestivas adversidades, a pesquisa alcançou significativo universo.

Fonte: Produção Própria.         

Dos respondentes, 2/3 atuam no Ensino Fundamental I e mais de 50% trabalham na Rede de Ensino de São Roque há mais de 10 anos.

Fonte: Produção Própria. 

          Como as respostas vieram, especialmente, de profissionais que atuam nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, a formação/habilitação predominante é em Pedagogia. Mas as outras disciplinas da Educação Básica se fizeram representadas: Educação Física, Letras-Português, Inglês, Ciências Biológicas, História, Matemática, Geografia, Física, Artes e Ciências Sociais. Chamou a atenção que muitas professoras e professores que atuam na Rede de Ensino de São Roque possuem duas ou três formações no ensino superior, indicando sólida trajetória acadêmica.

          Quando se adota um novo material didático numa unidade escolar ou rede, sugere-se que se apresente os seus autores e suas autoras, e que a linha de pensamento pedagógico seja divulgada aos docentes. Isso, segundo a pesquisa, não ocorreu no município de São Roque.

Fonte: Produção Própria. 

          Nas perguntas estritamente pedagógicas, as respostas foram predominantemente “Parcialmente” ou negativa. Questionados se “No seu componente curricular, os materiais didáticos do SESI utilizados na Rede de Ensino de São Roque apresentam uma sequência/estrutura lógica?”, responderam que:

Fonte: Produção Própria. 

          Na pergunta se “No seu componente curricular, o conteúdo disponibilizado pelo material didático do SESI é complementado pelo conteúdo do ano seguinte, deixando a progressão do aprendizado mais fluida?”, quase 50% de docentes responderam que não, colocando em dúvida a proposta pedagógica do material didático em questão, pois uma das características de bons livros para o Ensino Fundamental é a garantida de continuidade do processo de ensino aprendizagem.

Fonte: Produção Própria.         

          Ainda sobre os pontos negativos do material didático do SESI adotado na Rede de Ensino de São Roque, quase 50% de docentes responderam que as abordagens de conteúdo e atividades do material didático do SESI não são condizentes com o nível de ensino proposto.

Fonte: Produção Própria. 

          Nessa mesma linha, 63% responderam que o material didático do SESI não apresenta linguagem adequada à faixa etária.

Fonte: Produção Própria. 

          Sobre os pontos positivos do material didático do SESI, os respondentes acentuaram que os conteúdos apresentados são atuais, contextualizados e os dados evocados são válidos.

Fonte: Produção Própria. 

          Quase 70% das pessoas que responderam indicaram que o material didático do SESI apresenta atividades extraclasse, item essencial no processo de ensino aprendizagem.

Fonte: Produção Própria. 

          Sobre a questão que trata da coerência conceitual e metodológica, com indicação das referências bibliográficas do material didático do SESI, quase 50% de docentes responderam que atende parcialmente.

Fonte: Produção Própria. 

          As respostas indicaram ainda que o material didático do SESI não apresenta erros gramaticais.

Fonte: Produção Própria. 

E que sua principal qualidade está no acionamento de conteúdo virtual.

Fonte: Produção Própria. 

          Ao mesmo tempo, quando questionado se “Sua unidade escolar apresenta condições materiais (exemplo: internet, laboratório, computadores/notebooks, etc.) que potencializam a aplicação do material didático do SESI?”, quase 50% de docentes indicaram que não. Um dos problemas sugestionados por educadoras e educadores que motivou o Conselho a realizar a presente pesquisa foi, justamente, o disparate entre a proposta pedagógica do material didático do SESI e as condições materiais objetivas de trabalho, especialmente a falta de conectividade, aparelhos de informática insuficientes e oscilação da internet em diferentes unidades de ensino.

Fonte: Produção Própria. 

          Em 2023, o DEC argumentou que a parceria com o SESI contribuía com a capacitação/formação docente. Porém, as respostas colhidas no questionário não indicam isso. Sobre a pergunta: “O material de apoio ao(à) professor(a) oferece sugestões de abordagens e atividades que ajudam no momento do preparo e prática das aulas?”, 60% responderam que parcialmente; e 27% que não.

Fonte: Produção Própria.

          Referente à qualidade das capacitações oferecidas pelo SESI, somente 35% responderam que são Ótimas e Boas.

Fonte: Produção Própria. 

          A pergunta: “Sobre as capacitações oferecidas pelo SESI, contribuíram para melhorar a sua prática docente?”, reafirma o item acima.

Fonte: Produção Própria. 

          Sobre o cumprimento da legislação educacional vigente, de maneira predominante, os respondentes indicaram que o material didático do SESI atende:

a) Base Nacional Comum Curricular (BNCC):

Fonte: Produção Própria.

b) Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) e Lei 9.394 de 1996 (LDB):


Fonte: Produção Própria.

c) Lei nº 11.645/2008, que torna obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena nos currículos escolares:


Fonte: Produção Própria. 

          Contudo, quando confrontados com a pergunta: “A metodologia dos materiais didáticos do SESI é compatível com o Projeto Político Pedagógico (PPP) da sua unidade escolar?”, mais de 45% responderam que não, validando a questão sobre a não apresentação dos autores e autoras do material previamente; e a falta de integração pedagógica com as demais atividades de ensino aprendizagem programadas pela unidade escolar.

Fonte: Produção Própria. 

          Sobre a coerência entre a proposta curricular do material didático do SESI e o currículo desenvolvido pela Rede de Ensino de São Roque durante os anos de 2017 e 2019, 60% responderam que não há correlação direta.

Fonte: Produção Própria

          Perguntado sobre “a relevância do material didático do SESI adotado pela Rede de Ensino de São Roque para tornar o processo de ensino aprendizagem significativo no último ano?”, mais de 70% deram uma nota abaixo de 5 (de 1 a 10).

Fonte: Produção Própria. 

          Confrontados com a questão se “gostaria de receber o material didático do SESI em 2026?”, quase 90% dos docentes responderam que não.

Fonte: Produção Própria. 

          Por conseguinte, o material didático do SESI, que está na rede desde 2022 e rivaliza com os livros didáticos encaminhados gratuitamente pelo governo federal, não é utilizado de forma generalizada. Perguntados sobre o seu uso, quase 80% dos docentes deixaram de utilizá-lo com frequência.



Fonte: Produção Própria. 

          A última questão era aberta e produziu uma enormidade de respostas e possibilidades. Diante disso, e devido a brevidade de tempo, produzimos uma nuvem de palavras para indicar, sumariamente, termos fortes sobre a adoção do material didático do SESI na Rede de Ensino de São Roque.

          Optou-se por não instituir nenhum filtro, inclusive de termos conectivos. Independente disso, nota-se algumas constâncias, principalmente a reclamação sobre o problema de aplicabilidade, devido à linguagem complexa para a faixa etária e ao baixo nível sociocultural dos estudantes; e a falta de conectividade nas unidades escolares, com a internet oscilando. Também apontaram a ausência de estrutura material, com poucos computadores para atender os discentes.

Conclusão

           Mesmo num tempo curto, a pesquisa atingiu quase 15% das educadoras e dos educadores da Rede de Ensino de São Roque; e revelou a temeridade de se adquirir material didático sem análise técnico-pedagógica e um franco diálogo com os profissionais que atuam em sala de aula.

          Pontos positivos foram ressaltados sobre o material didático do SESI, especialmente a proposta de conectividade e as atividades extraclasse, porém, muitas escolas de São Roque não possuem, segundo a pesquisa, condições materiais objetivas para concretizar o potencial das apostilas do Sistema SESI. Talvez por isso, docentes da rede não enxerguem razão para continuar a parceria.

          Sugere-se um diálogo direto e franco com as educadoras e os educadores da Rede de Ensino de São Roque antes de tratativas para um novo contrato para o ano escolar de 2026.


Conselho Municipal de Educação de São Roque (CME-SP)


[1] Os dados informes (não tratados) estão em posse do CME-São Roque. 

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