15/09/2025

O outro lado da inclusão que ninguém quer ver









A verdade é dura: a inclusão, do jeito que está, não inclui ninguém. Falta estrutura, apoio e responsabilidade compartilhada.

Professores estão adoecendo, sobrecarregados e sem suporte para lidar com crises. Em salas cheias, basta um aluno se desregular para o caos se instalar: gritos, quebras, agressões, colegas assustados e a professora sozinha tentando segurar tudo.

Muitas famílias ainda culpam apenas a escola, enquanto vários alunos sequer têm acompanhamento terapêutico. No fim, a pressão por resultados continua como se fosse possível fazer milagres nesse cenário.

Aqui entra uma diferença que pouca gente quer discutir: inclusão não é o mesmo que equidade. Incluir não é apenas colocar todos na mesma sala, é oferecer condições diferentes para necessidades diferentes. Do jeito que está, a escola regular cheia de estímulos não consegue atender a todos, e isso é fato, mas ninguém parece preparado para essa conversa.

O resultado é perverso: profissionais adoecem, famílias se fragilizam e crianças ficam ainda mais vulneráveis. Sem apoio, o que temos é apenas uma inclusão de fachada, que não resolve nada. > Nelice Pompeu: O outro lado da inclusão que ninguém quer ver


É uma situação que precisa ser dita com franqueza: a inclusão, do jeito que está sendo praticada hoje, não inclui ninguém, nem alunos, nem famílias. O problema é a falta de estrutura, apoio e responsabilidade compartilhada.

Esse cenário é recorrente e tem adoecido professores, coordenadores e funcionários. Vemos profissionais exaustos, com a saúde física e emocional comprometida, porque são cobrados de todos os lados: direção, famílias, resultados, registros, planos do AEE (Atendimento Educacional Especializado), sem receber suporte real para lidar com crises.

Na sala de aula, a realidade beira o insano: turmas lotadas, mais de 30 alunos, estímulos e gatilhos por toda parte. Quando um estudante se descontrola, o efeito é devastador: colegas apanham, reagem, ficam aterrorizados. O aluno pode correr, quebrar materiais, gritar sem parar, rasgar atividades, e a professora, muitas vezes sozinha, precisa segurar tudo. Não é apenas ensinar; é garantir segurança, mediar conflitos, proteger vítimas e, ainda assim, cumprir relatórios e planilhas. Isso não é suporte, é sobrecarga.

Outro ponto grave é a relação com algumas famílias. Há casos em que responsabilizam apenas a professora pelas crises, como se a escola fosse a única responsável. Em 2024, por exemplo, uma criança em surto fugiu do próprio pai durante um passeio em Santa Catarina, caiu de um penhasco e morreu. Se uma tragédia dessas acontece até sob os cuidados da família, como exigir que a escola, sozinha, dê conta sem apoio externo?

E existem situações que beiram o absurdo, como a mãe que levou um advogado para a reunião escolar. Não foi para dialogar, mas para intimidar, desqualificar a professora e ainda incentivar outras famílias a agir do mesmo modo. Esse tipo de postura só amplia o clima de medo, desgaste e desconfiança.

Muitos desses alunos sequer têm acompanhamento terapêutico; frequentam apenas a escola, que se vire. Enquanto isso, a cobrança por resultados continua como se fosse possível obter milagres em um contexto tão hostil ao processo de inclusão.

O resultado desse modelo é perverso: professores adoecem, trabalhadores vivem sob tensão, e os próprios alunos, inclusive aqueles com necessidades especiais, ficam mais vulneráveis. A inclusão não é apenas presença física na sala; é acolhimento, adaptação, rede de saúde, formação continuada para as equipes e recursos adequados. Sem isso, o que se pratica é uma espécie de “inclusão de fachada” que não resolve nada.

Se alguém discorda, proponho que passe um dia no chão de uma sala de aula lotada para sentir o caos que descrevo. Não para apontar culpados, mas para perceber a dimensão do problema. Não é razoável continuar exigindo que a professora, sozinha, sem suporte, seja a guardiã de tudo, quando faltam atendimento psicossocial, profissionais de apoio e políticas públicas efetivas.

É urgente repensar: inclusão precisa ser investimento em equipe, em formação e em serviços integrados e não apenas uma frase bonita no projeto político-pedagógico. Caso contrário, veremos mais profissionais adoecendo, mais famílias fragilizadas e mais crianças sem a proteção que deveriam ter. 

veja vídeo pelo link:

Assistam o vídeo @diaadianaescolaoficial


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