10/04/2026

Morre Afrika Bambaataa, pioneiro do hip-hop e da cultura negra mundial

 



Agência Brasil 
Aos 68 anos, artista deixou legado que atravessa décadas e territórios
Anna Karina de Carvalho - Repórter da Agência Brasil
Publicado em 10/04/2026 - 18:25
Rio de Janeiro
September 2, 2018, New York, New York, USA: Afrika Bambaataa, a pioneer of hip-hop, died at age 67 from complications of cancer in the early hours of April 9, 2026. Archive photo from September 2, 2018, during BR Day (Brazilian music festival) held in New York City, United States. (Credit Image: © Vanessa Carvalho/ZUMA Press Wire)
© Reuters/Vanessa Carvalho/Arquivo/Proibida reprodução
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O rapper, DJ e produtor norte-americano Afrika Bambaataa morreu aos 68 anos, na madrugada desta quinta-feira (9), em um hospital na Pensilvânia, nos Estados Unidos, em decorrência de complicações de um câncer, segundo informações divulgadas pelo site TMZ.

Considerado um dos fundadores do hip-hop, Bambaataa deixa um legado que atravessa décadas e territórios, conectando a cultura negra periférica em escala global.

A morte de Bambaataa provocou forte comoção entre artistas e agentes culturais. Em publicação oficial no perfil @afrika_bambaataa_official, a equipe do artista destacou sua dimensão humana e política:

“O que ele construiu — a Universal Zulu Nation, a cultura, o movimento — nunca foi apenas música. Foi uma mensagem de paz, amor, união e diversão.
Seu espírito vive em cada batida, em cada b-boy, em cada grafite, em cada DJ que toca pela cultura.
O Hip-Hop é hoje uma linguagem global por causa dele”

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A organização Universal Zulu Nation, criada por Bambaataa, foi uma das bases estruturantes do hip-hop, difundindo valores como paz, união e respeito entre jovens das periferias.

No Brasil, sua influência é profunda. O DJ Marlboro já afirmou que “Planet Rock” foi uma das principais referências para o surgimento do funk carioca.

O próprio Bambaataa reconhecia essa conexão. Em entrevista ao jornal O Globo, em 2010, afirmou ver sua música refletida nos ritmos brasileiros, especialmente pela proximidade com matrizes africanas.

O artista esteve diversas vezes no Brasil, incluindo uma apresentação no Rock in Rio em 2011, ao lado de Paula Lima e do rapper português Boss AC, e uma participação no programa Esquenta!, da TV Globo, em 2013, com Preta Gil.

Para o rapper GOG, um dos nomes centrais do hip-hop nacional, a morte de Bambaataa representa uma perda histórica:

“É uma perda irreparável no nosso front. Bambaataa foi um mestre de consciência dentro do movimento. Ele transformou a rua em escola e traz a cultura como ferramenta de paz. Então ele deixa um legado que todos nós do hip hop temos e devemos preservar e honrar.”

O jornalista e ativista Eduardo Nascimento também ressaltou o papel transformador do artista.

“Afrika Bambaataa: Presente Do Cais do Valongo à pacificação das gangues no Bronx.
Da criação da Universal Zulu Nation à fundação do movimento Hip Hop. Mais que um nome, Bambaataa representa liderança, consciência e transformação.
Um símbolo da virada : da rua para a cultura, do conflito para a construção coletiva.”

Nascimento relembra ainda encontros com o artista no Brasil, incluindo participação em debates ao lado de Mano Brown, destacando a dimensão política e educativa.

Para o jornalista e antropólogo Spensy Pimentel, autor do Livro Vermelho do Hip Hop, a importância de Bambaataa ultrapassa a música e se insere em um campo mais amplo de pensamento e organização cultural:

“A influência de Afrika Bambaataa no Hip Hop global é algo muito interessante porque não é somente artística, é também filosófica e política. Ele não somente foi um dos principais DJs que iniciaram o Hip Hop por volta de 1973, como foi também um dos primeiros artistas a criar hits na indústria fonográfica, como Planet Rock, de 1982. Artisticamente, ele influenciou não somente aquilo que nós chamamos de Hip Hop no Brasil, mas também todo o movimento que nós chamamos de funk carioca, ou simplesmente funk."

Spensy Pimentel ressalta ainda que o artista criou a Universal Zulu Nation, em 1973, que foi a primeira organização do Hip Hop. Influenciado por organizações negras como o Black Panthers, ele mostrou que o movimento podia ser muito mais do que apenas música e festa. "A transformação do Hip Hop em um movimento cultural global foi muito impulsionada pela ação dele. Nos últimos 10 anos, contudo, vieram à tona diversas acusações de abuso sexual contra crianças, que mancharam esse legado, lamentavelmente.”

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