07/05/2026

Lula em Washington: 'Eu acredito muito mais no diálogo do que na guerra'

 



Presidente brasileiro concedeu entrevista coletiva após encontro com presidente dos Estados Unidos. Lula contou ter defendido junto a Donald Trump solução negociada para as guerras em curso. Lula ainda respondeu perguntas sobre parcerias no combate ao crime e sobre eleições no Brasil

Agência Gov
07/05/2026 17:32
Lula em Washington: 'Eu acredito muito mais no diálogo do que na guerra'
Ricardo Stuckert/PR
Lula, Trump e ministros dos dois países no Salão Oval: "A minha vocação é de diálogo"

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse a jornalistas ter defendido junto a Donald Trump, durante encontro bilateral nesta quinta-feira, (7) em Washington, que o estadunidense risse mais. No momento da foto oficial do encontro, segundo o presidente brasileiro. ele recomendou: "Ria, ria um pouco. Alivia a alma", contou Lula.

"Eu acredito muito mais no diálogo do que na guerra", explicou o presidente do Brasil, quando indagado sobre o que teriam dito os dois mandatários quando o assunto foram as guerras e os riscos de guerras. "É assim que eu acho que a gente deve fazer política", completou, como se resumisse a própria reunião com Trump, que durou aproximadamente três horas, entre a conversa no Salão Oval e o almoço na Casa Branca.

"Eu disse para ele que eu tenho interesse em discutir qualquer assunto que ele precisar discutir. E quiser discutir comigo sobre Cuba, sobre Venezuela, sobre Irã, sobre o que ele quiser, eu estou disposto a discutir. Porque para mim é mais simples. Eu não tenho vocação belicista. A minha vocação é de diálogo, é acreditar no poder da narrativa, acreditar no poder do convencimento", disse, ainda, Lula.

Eu não tenho vocação belicista. A minha vocação é de diálogo, é acreditar no poder da narrativa, acreditar no poder do convencimento"

Conselho de Segurança da ONU

"Falei muito com ele sobre a questão da mudança no Conselho da ONU. É preciso reformar a ONU e que ele, Trump, Xi Jinping, Putin, Macron e o primeiro-ministro da Inglaterra são as pessoas que têm responsabilidade de propor a mudança, porque eles são os membros permanentes do Conselho de Segurança.

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Só eles podem tudo. Eles têm direito de veto. Eles têm direito de indicar a Secretaria-Geral da ONU. Nós somos coadjuvantes. Os outros países são coadjuvantes. Então, eu falei para ele, você poderia convidar o Conselho de Segurança para discutir, sabe, as guerras que estão acontecendo no mundo, como é que vai encontrar e fazer parte disso? Vocês podem fazer isso.

Por que não aumenta o Conselho de Segurança da ONU? O Brasil gostaria de participar, há muito tempo o Brasil briga. O México tem tamanho para isso, a Índia tem tamanho para isso, a Alemanha, o Japão, países como o Egito, países como a África do Sul, países como a Angélica, países como mais países africanos, a Etiópia tem 126 milhões de habitantes, a Indonésia tem 200 milhões de habitantes, ou seja, então, o que não falta é país para ajudar a que a ONU volte a funcionar em plenitude. Se a ONU funcionasse bem, poderia acabar metade dos conflitos que você tem armado na África."

Guerra: começo e fim

"Vocês estão lembrados que a guerra da Rússia e da Ucrânia era para durar três meses, já quase quatro anos. Ninguém sabe, todo mundo sabe como é que começa uma guerra, como termina, ninguém sabe. Ninguém sabe.

Por isso que eu acho que dialogar, conversar é muito mais barato, mais eficaz, não tem vítima, não tem destruição de casa, não tem morte de criança, não tem destruição de escola. Então, isso eu falei ao presidente Trump, porque não é a primeira vez. Quem sabe, a gente um dia vai conseguir convencer, eu já liguei para o Xi Jinping, propondo convocar o Conselho de Segurança, já liguei para o Putin, já liguei para o Macron: 'gente convide vocês, são cinco pessoas, são cinco países, convoca uma reunião, uma teleconferência, ninguém tem que sair da comodidade do seu gabinete, decida, vamos tomar uma decisão, vamos mudar o Estatuto da ONU, vamos convocar uma Assembleia Especial para discutir isso e vamos criar paz no mundo'.

Isso foi dito. Espero que ele tenha ouvido."

Datacenters no Brasil

"Nós temos interesse, muito interesse, que os Estados Unidos voltem a investir no Brasil. Aliás, se tem uma coisa que nós queremos fazer é isso, que mais gente vá para investir no Brasil. Nós estamos, quem sabe, o maior investimento de transição energética de todos os países, temos a maior possibilidade. Vamos fazer as coisas acontecerem a partir do Brasil.

Alguém quer fazer data center no Brasil, tem que produzir sua própria energia, porque nós não vamos gastar dinheiro para criar data center para mandar dados para outros países. Nós queremos dados para nós. Agora, nós temos condições de oferecer aos outros países a oportunidade de construir data center, desde que eles arquem com a produção de energia.

É o mínimo que a gente pode exigir."

Interferência nas eleições brasileiras

"Olha, se ele [Trump} tentou interferir nas eleições brasileiras [em 2018], ele perdeu, porque eu ganhei as eleições. Eu acho que não é uma boa política um presidente de outro país ficar interferindo nas eleições de outro país.

É o princípio básico para que a gente não permita a ocupação cultural, política e a soberania de um outro país. Eu penso que a nossa relação com o Trump é uma relação sincera. Eu penso que, desde o primeiro encontro que nós tivemos, de 29 segundos, em Nova York, numa reunião da Assembleia Geral da ONU, até os telefonemas que nós fizemos, até o encontro da Malásia e até esse encontro de hoje, eu acho que evoluiu muito.

Eu tenho razões para acreditar que o Trump gosta do Brasil. E, por isso, eu quero que ele saiba que nós brasileiros temos interesse em fazer os melhores acordos com os Estados Unidos. E eu acho que, sinceramente, ele sabe a importância dos Estados Unidos.

Eu não acredito que ele vá ter qualquer influência nas eleições brasileiras, até porque quem vota é o povo brasileiro, sabe? E eu acho que ele vai se comportar como presidente dos Estados Unidos, deixando que o povo brasileiro decida o seu destino, como eu vou deixar que o povo americano decida o destino deles. É isso que vai acontecer. A nossa relação é muito boa, mas muito boa.

E quem vai decidir a eleição brasileira é o povo brasileiro. Eu já tenho muita experiência, sabe, em eleições no Brasil.

Não acredito em interferência de quem quer que seja de fora".

Cuba

"Eu disse para ele, sabe, que eu gostaria que se ele precisar de ajuda para discutir a situação de Cuba, eu estou inteiramente à disposição. O que eu ouvi, não sei se a tradução foi correta, é de que ele disse que não pensa em invadir Cuba.

Isso foi dito pela intérprete, sabe, e eu acho que isso é um grande sinal. Até porque Cuba quer dialogar. Cuba quer dialogar e Cuba quer encontrar uma solução para colocar fim a um bloqueio que nunca deixou Cuba ser um país completo, livre, desde a vitória da Revolução de 59.

Cuba quer dialogar e Cuba quer encontrar uma solução para colocar fim a um bloqueio que nunca deixou Cuba ser um país completo, livre, desde a vitória da Revolução de 59.

Acho que é o maior bloqueio, o bloqueio mais longevo da história da humanidade. Então, eu estou à disposição, sabe, se precisar que o Brasil converse sobre qualquer país, se precisar que o Brasil converse com qualquer país sobre a questão das interferências americanas em Cuba, no Irã, o Brasil está disposto a conversar."

Minerais críticos e terras raras

"Olha, o que nós sabemos é que as chamadas terras raras e os minerais críticos são muito importantes, sobretudo, sabe, na questão dos armamentos dos países. O que nós dissemos para os Estados Unidos é que nós não temos veto a nenhum país que queira participar com o Brasil. O Brasil tem a obrigação de ter uma regulamentação em que o Brasil seja soberano, o Brasil tem a obrigação, sabe, de compartilhar com quem queira participar conosco, seja os Estados Unidos, a China, a Alemanha, a França, qualquer um que quiser, a Índia, o Brasil estará aberto a construir parceria.

O que nós não queremos é ser meros exportadores dessas coisas. Nós não queremos repetir o que aconteceu com a prata na América Latina, com o ouro, o que aconteceu com o ouro de cento e poucos anos no Brasil sendo mandado para fora, com minério de ferro, em que a gente, sabe, manda muito minério para fora e a gente poderia fazer um processo de transformação interna, que a gente não fez. Então, com as terras raras, a gente vai mudar de comportamento."

Nós queremos que o Brasil seja o grande ganhador dessa riqueza que a natureza nos deu."

Resumo do encontro

"Mas é isso, eu só posso terminar dizendo para vocês [jornalistas] o seguinte, olha, eu sou muito crítico às guerras feitas no mundo, em todos os países. Da mesma forma que eu fui crítico à guerra da Ucrânia, fui crítico à guerra, o que o Israel fez com o Gaza, o que o Israel está fazendo com o Líbano, o que os Estados Unidos e Israel fizeram com o Irã, eu sou totalmente contra, totalmente contra. Não é preciso, não é preciso.

Para isso existe uma coisa chamada diplomacia, que resolve com muito mais facilidade. Então, eu faço questão de dizer, fazer crítica, faço questão de dizer que é preciso reformar a ONU e faço questão de dizer que eles são responsáveis. Olha, gente, o Conselho dos Membros Permanentes da ONU foi criado para manter o mundo em harmonia.

Eles são poderosos, porque foi dado a eles o direito de veto. Então, nada é aprovado se um deles não concordar. Então, eu falei para o Trump, eu falei para o Xi Jinping, por que é que vocês não fazem um reunião e não são cinco pessoas? Um litro de uísque, um vinho, um queijo, sei lá, um joelho de porco, qualquer coisa. E faz uma reunião e discute. Mas não tem discussão, então não tem solução ao problema. E nós vamos continuar com essa ideia.

Nós não precisamos de guerra. O mundo está precisando de paz. E é isso que nós precisamos construir."

Gente, eu queria agradecer a vocês mais uma vez, dizer para vocês que é sempre prazeroso conversar com a imprensa brasileira. No caminho eu vou ver o que vocês publicaram, porque antigamente eu tinha que esperar o que vocês publicaram no dia seguinte. Agora eu nem acabei de falar, vocês já publicaram."

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