do Brasil 247
Propostas contra crime organizado, roubos de celular e violência contra mulheres colocam Haddad e Tarcísio em confronto antecipado
247 – Fernando Haddad (PT) decidiu antecipar a apresentação de seu plano de segurança pública para São Paulo, com propostas voltadas ao combate ao crime organizado, aos roubos e furtos de celulares e à violência contra as mulheres. A estratégia do pré-candidato ao governo paulista pressiona o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que disputará a reeleição, e transforma o tema em um dos principais campos de confronto da campanha estadual, segundo o jornal O Globo.
O núcleo político de Haddad pretende divulgar as medidas antes mesmo da conclusão do programa completo de governo. A decisão ocorre em um contexto no qual a violência aparece como a principal preocupação dos moradores de São Paulo, conforme pesquisa Genial/Quaest divulgada em abril.
Nos últimos meses, Haddad tem consultado especialistas para estruturar o projeto, entre eles Leandro Piquet, professor da Universidade de São Paulo (USP), e Benedito Mariano, sociólogo do Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa (IREE).
O documento deverá ser organizado em três eixos. O primeiro será dedicado ao enfrentamento do crime organizado por meio de inteligência financeira, compartilhamento de dados e integração entre autoridades estaduais, órgãos federais, municípios e instituições de fiscalização.
A proposta aproveita a repercussão da Operação Carbono Oculto para defender que o poder público concentre esforços também nas estruturas econômicas e empresariais usadas para financiar e ocultar recursos de organizações criminosas.
O segundo eixo tratará da segurança nos espaços urbanos. Entre os objetivos estão reduzir roubos e furtos de celulares, ampliar a presença do Estado em áreas consideradas vulneráveis e aumentar a sensação de segurança da população.
O terceiro eixo será voltado à proteção de grupos socialmente vulneráveis, com prioridade para o combate à violência contra as mulheres. A campanha também pretende incluir medidas relacionadas ao uso de inteligência artificial na identificação de padrões criminosos e na análise automatizada de informações.
Outro ponto central será a redução da letalidade policial, tema que Haddad vem explorando em críticas à política de segurança adotada pelo governo Tarcísio.
Integração contra o crime organizado
Responsável pela coordenação do programa de governo do petista, o deputado estadual Emídio de Souza (PT) afirmou que as propostas deverão ser concluídas na próxima semana. “São várias propostas, como o combate ao crime organizado, com cooperações interfederativas, com outros estados, com guardas municipais, com órgãos como a Receita Federal, Polícia Federal, ministérios públicos, secretaria da Fazenda. É colocar o problema na mão do governador, não deixar só na Secretaria de Segurança”, declarou.
Uma das promessas em discussão é a criação, já no primeiro dia de um eventual governo, de um gabinete integrado de segurança. A estrutura reuniria autoridades estaduais, Receita Federal, Polícia Federal, Ministério Público e representantes de outras instituições.
A campanha pretende argumentar que a proximidade política de Haddad com o presidente Lula (PT) poderia facilitar operações conjuntas e ampliar a cooperação entre o governo paulista e a União.
Durante passagem pela região de Campinas, Haddad afirmou que grupos milicianos estariam avançando sobre setores econômicos do interior de São Paulo, incluindo o transporte de cargas. A declaração provocou reação do governo estadual.
Em nota, a Secretaria de Segurança Pública informou que o número de roubos de cargas caiu 34% entre janeiro e maio, chegando a 1.061 ocorrências. Segundo o governo, trata-se do menor volume já registrado para o período.
A pasta afirmou ainda ter realizado 283 operações conjuntas com a Polícia Federal desde o início da atual administração.
Tarcísio tem declarado publicamente que não admite o controle territorial de organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC). Em uma operação recente em Paraisópolis, policiais foram filmados retirando barricadas e estruturas instaladas para impedir o acesso a determinadas ruas. As imagens foram divulgadas nas redes sociais do governador.
Haddad defende retorno de câmeras com gravação contínua
Entre as principais propostas do pré-candidato petista está a retomada das câmeras corporais com gravação contínua nos uniformes da Polícia Militar.
No modelo atualmente utilizado, os equipamentos podem ser ativados pelos próprios agentes ou remotamente em situações específicas, como durante o atendimento de ocorrências. No formato adotado inicialmente durante o governo João Doria, a gravação era ininterrupta desde o momento em que o policial vestia a farda.
“Temos que voltar com as câmeras nas fardas em tempo contínuo. Porque isso aí protege o policial também. Você vai voltar a diminuir a letalidade e também diminuir a morte dos policiais”, afirmou Haddad durante uma agenda em Hortolândia, em junho.
São Paulo registrou 834 mortes decorrentes de intervenções policiais em 2025, maior número desde 2019, segundo levantamento da Rede de Observatórios da Segurança. O total representou crescimento de 2,7% na comparação com 2024.
No mesmo período, houve queda em indicadores como roubos, furtos e homicídios. O governo estadual sustenta que a ampliação do enfrentamento ao crime ajuda a explicar a evolução dos números relacionados às intervenções policiais.
Tarcísio, que inicialmente se posicionava contra as câmeras corporais, modificou seu discurso após denúncias de abusos cometidos por agentes e questionamentos no Supremo Tribunal Federal (STF).
O governador admitiu que estava “completamente errado” sobre os equipamentos e anunciou a ampliação de modelos com acionamento automático, destinados a preservar as imagens mesmo quando o policial não fizer a ativação manual.
Violência contra mulheres entra no centro da campanha
Haddad também pretende criar o programa “SP Protege”, voltado ao atendimento de mulheres vítimas de violência doméstica.
A proposta será apresentada em meio ao crescimento dos feminicídios. Nos primeiros cinco meses deste ano, os casos aumentaram 16% em São Paulo, acompanhando uma tendência observada em outras regiões do país.
Em 2025, o estado contabilizou 266 feminicídios, alta de 8,1% na comparação com o ano anterior e maior resultado da série histórica.
Haddad atribui parte do problema aos cortes de recursos destinados à Secretaria de Políticas para a Mulher. Criada pelo governo Tarcísio em 2023, a pasta foi alvo de críticas da oposição por não possuir, inicialmente, orçamento próprio suficiente.
Diante do aumento das ocorrências, o governo estadual anunciou um patrulhamento específico da Polícia Militar para casos de violência doméstica. A iniciativa é comandada pela coronel Glauce Cavalli.
A atual administração também destaca a criação de delegacias especializadas e o lançamento de um aplicativo para monitoramento de casos e registro de boletins de ocorrência.
Aliados de Tarcísio reagem às críticas
Embora Tarcísio evite confrontar diretamente Haddad, integrantes de seu grupo político passaram a responder ao petista e a questionar o histórico do PT na área de segurança pública.
Ex-secretário estadual de Segurança Pública e pré-candidato ao Senado, o deputado federal Guilherme Derrite (PP) publicou um vídeo acusando Haddad de distorcer a atuação do governo paulista e do Congresso no debate sobre o combate às organizações criminosas.
“O PL Antifacção enviado pelo governo Lula era fraquíssimo”, afirmou Derrite.
“Ele mente quando fala que a gente enfraqueceu e deixou de ter eficácia para combater o topo da pirâmide. Haddad, quem tem que se explicar é você, que quando era prefeito criou o programa De Braços Abertos, o ‘bolsa crack’, com três refeições diárias e hospedagem para usuários de drogas e traficantes”, acrescentou o parlamentar.
A expressão “bolsa crack”, utilizada por adversários políticos de Haddad, refere-se ao programa De Braços Abertos, implantado durante sua gestão na Prefeitura de São Paulo, entre 2013 e 2016.
O projeto oferecia hospedagem, alimentação e oportunidades de trabalho de zeladoria, com pagamento diário de R$ 15, a dependentes químicos. A interrupção imediata do consumo de drogas não era exigida, porque o objetivo era criar condições para que os participantes buscassem tratamento gradualmente.
Governo aposta nos indicadores dos últimos quatro anos
A elaboração do plano de governo de Tarcísio é coordenada pela secretária estadual de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, Natália Resende. Segundo integrantes da equipe, especialistas também estão sendo consultados e as propostas para a segurança pública deverão ser apresentadas nas próximas semanas.
Aliados do governador avaliam, no entanto, que a campanha deverá concentrar sua defesa nos resultados acumulados pela administração nos últimos quatro anos, especialmente na queda dos registros de roubos, furtos e homicídios.
Com a antecipação das propostas de Haddad e a mobilização dos aliados de Tarcísio, o debate sobre segurança pública começa a ocupar o centro da disputa pelo Palácio dos Bandeirantes antes mesmo das convenções partidárias e do início oficial da campanha eleitoral.



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