Brasil 247
Registros de portaria obtidos via LAI apontam idas do funcionário do ex-banqueiro do Master a parlamentares em fevereiro de 2024
247 – Registros da portaria da Câmara dos Deputados, obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), apontam que um motorista do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, esteve no prédio da Casa legislativa pelo menos quatro vezes durante o mês de fevereiro de 2024. Sidney Santos, conhecido pelo apelido de “Kiko”, informou na recepção que se dirigia aos gabinetes dos deputados federais Geraldo Mendes, o “Homem do Chapéu” (União-PR); Benes Leocádio (União-RN); Pedro Westphalen (PP-RS); e Sanderson (PL-RS), segundo Andreza Matais, do Metrópoles.
De acordo com os dados fornecidos pela portaria do Congresso, a primeira entrada registrada ocorreu no dia 7 de fevereiro de 2024, uma quarta-feira, às 16h33, tendo como destino o gabinete do deputado Geraldo Mendes. No dia seguinte, 8 de fevereiro, às 9h, Sidney declarou que iria ao gabinete do deputado Benes Leocádio. Na semana seguinte, em 15 de fevereiro (quinta-feira), às 10h43, o registro apontou visita ao gabinete de Pedro Westphalen. A quarta ida ocorreu no dia 20 de fevereiro (terça-feira), às 10h45, direcionada ao gabinete do deputado Sanderson.
Sidney Santos é mencionado indiretamente em uma decisão proferida em maio deste ano pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a realização de buscas em endereços do senador Ciro Nogueira (PP-PI). Sidney não figura como investigado no caso. Na referida decisão, o ministro descreve a relação entre Ciro Nogueira e Vorcaro e detalha que o ex-banqueiro enviou um motorista à residência do senador, em novembro de 2023, para buscar rascunhos de um projeto de lei.
Esses rascunhos teriam sido revisados em um escritório indicado por Vorcaro e, em seguida, devolvidos a Ciro Nogueira, sendo Sidney o responsável por fazer o transporte dos papéis. O teor dos documentos trocados entre o parlamentar e o empresário tratava da regulamentação do comércio de créditos de carbono, tema de interesse direto de Henrique Vorcaro, pai do ex-banqueiro.
Na decisão do STF, o ministro André Mendonça destaca apontamentos feitos pelos investigadores sobre a cautela adotada nas entregas: “A denotar que haveria nos episódios algo que iria além das vias ordinariamente empregadas no âmbito das relações que se estabelecem entre atores políticos e a iniciativa privada, os investigadores enfatizam que Daniel Vorcaro teve o cuidado de orientar a pessoa responsável por promover a devolução dos documentos ‘para que o motorista não consiga vincular o transporte do documento ao parlamentar’, bem como para que ‘o envelope utilizado não faça referência ao Banco Master’”.
Procurado em junho para se manifestar sobre os episódios, o motorista Sidney Santos evitou prestar declarações. “Eu quero é distância desse povo, tá bom?”, disse ele antes de interromper a comunicação.
O Metrópoles procurou os quatro parlamentares citados nas entradas da portaria da Câmara. Dois deles enviaram notas oficiais negando que tenham recebido o motorista em seus gabinetes.
Em posicionamento oficial, o deputado Sanderson negou qualquer contato: “Não conheço e nunca vi o indivíduo mencionado. Em nenhum momento recebi ou conversei, seja no meu gabinete ou em qualquer outro lugar, com o indivíduo mencionado. Conforme a minha agenda oficial, cuja cópia segue em anexo, é possível verificar as pessoas por mim recebidas no dia referido. Repudio qualquer tentativa de vincular meu nome ou meu mandato a pessoas que desconheço. Minha atuação sempre foi e sempre será pautada pela transparência e lisura, e os registros oficiais do gabinete comprovam, de forma inequívoca, as agendas e as pessoas recebidas em meu gabinete. Por fim, vale registrar que atendo milhares de pessoas todos os anos, tanto na Câmara dos Deputados, em Brasília, como nas centenas de agendas políticas cumpridas em virtude do cargo, sendo absolutamente capcioso tentar inferir que eu tenha recebido um cidadão que seria, à época, motorista de alguém envolvido em atividade criminosa”.
O deputado Pedro Westphalen manifestou-se por meio de sua assessoria: “Em conversa com minha chefe de gabinete, Joana Hartmann, fui informado de que o gabinete não tem registro dessa visita. O registro é feito na portaria da Câmara dos Deputados, mas a verificação se a pessoa realmente vai até o gabinete não é feita, e nenhuma autorização prévia do gabinete é necessária para qualquer cidadão entrar na Câmara dos Deputados. Vimos, por meio da matéria, que ele tem empresa de locação de veículos e presta serviços de motorista. Vamos continuar procurando para verificar se realmente teve acesso ao gabinete”.



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