247 – As tarifas impostas pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros têm motivação política e buscam punir o Brasil por sua crescente independência digital, e não por supostas distorções comerciais. A avaliação é do economista Joseph Stiglitz, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, em entrevista à BBC, na qual criticou duramente a política tarifária do presidente Donald Trump.
Segundo Stiglitz, a ofensiva americana está ligada, entre outros fatores, ao avanço de soluções tecnológicas brasileiras, como o sistema de pagamentos Pix, que reduz a dependência de grandes empresas financeiras dos Estados Unidos.
Pix tornou-se alvo da política americana
Na entrevista, Stiglitz afirmou que Washington vê com preocupação a consolidação do Pix como um sistema nacional de pagamentos independente.
“Os Estados Unidos não gostam da ideia de que o Brasil tenha seu próprio sistema de pagamentos, independente da Visa e da Mastercard”, afirmou o economista.
Para ele, os ganhos proporcionados pelo Pix para a economia brasileira são muito superiores aos eventuais prejuízos provocados pelas tarifas americanas.
“Os benefícios do sistema de pagamentos que ele quer destruir [Pix] são quase certamente muito maiores do que os custos que estão sendo impostos ao Brasil”, declarou.
Tarifas seriam instrumento de coerção política
O Nobel sustenta que Trump utiliza tarifas comerciais como mecanismo de pressão contra governos que recusam alinhar-se aos interesses de Washington.
Segundo Stiglitz, o objetivo do presidente americano é forçar outros países a cederem às suas exigências, tanto na política externa quanto em disputas econômicas e tecnológicas.
Na avaliação do economista, o Brasil tornou-se o primeiro grande alvo dessa nova estratégia justamente por demonstrar resistência às pressões americanas e buscar preservar sua autonomia institucional e democrática.
Críticas à justificativa dos EUA
Stiglitz também contestou os argumentos utilizados pela Casa Branca para justificar as sanções comerciais.
Segundo ele, a alegação de combate ao trabalho forçado não passa de uma justificativa política sem fundamento econômico consistente.
O economista classificou essa narrativa como uma “farsa desonesta”, afirmando que as medidas não decorrem de preocupações legítimas com práticas comerciais, mas de interesses geopolíticos.
Impacto econômico tende a ser limitado
Apesar das sobretaxas, Stiglitz avalia que os efeitos sobre a economia brasileira devem ser relativamente modestos.
Segundo ele, como grande parte das exportações brasileiras é composta por commodities, esses produtos podem ser redirecionados para outros mercados internacionais, reduzindo o impacto das barreiras impostas pelos Estados Unidos.
China sai fortalecida
Na entrevista, Stiglitz argumentou ainda que a política comercial de Trump enfraquece a arquitetura econômica internacional construída nas últimas décadas e acaba fortalecendo a posição da China.
Segundo o economista, Pequim transmite maior previsibilidade e respeito ao Estado de Direito nas relações econômicas internacionais do que os Estados Unidos sob a administração Trump.
Ele também alertou que países excessivamente dependentes da economia americana tornam-se mais vulneráveis às mudanças de humor político em Washington, enquanto a China surge como uma alternativa mais estável para parcerias econômicas de longo prazo.



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