do Brasil 247
População das extremidades da capital sofre com torneiras secas no período noturno devido à estratégia de gestão de demanda, aponta diagnóstico
247 – A diminuição diária da pressão nas tubulações de água pela Sabesp tem provocado a sensação de um racionamento diário e ininterrupto para moradores de regiões periféricas da cidade de São Paulo. A prática atinge de forma desproporcional as áreas mais vulneráveis e situadas em pontos elevados, onde o abastecimento deixa de chegar quando a força do fluxo é reduzida pela concessionária durante a noite, informa a Folha de São Paulo.
Em comunidades do Jardim D’Abril, no extremo oeste da capital paulista, a combinação entre a topografia de morros e a ausência de conexões oficiais com a rede gera desabastecimento constante. “Aqui falta água todo dia”, relata o líder comunitário Anailson Santos Lima, de 48 anos. De acordo com o morador, os impactos na rotina do bairro são imediatos. “Quando chegam do trabalho, no começo da noite, as pessoas não conseguem tomar banho porque a água fica fraca e o chuveiro queima”, acrescenta.
Entenda a diferença entre redução de pressão e rodízio
A estratégia aplicada pela Sabesp é chamada tecnicamente por especialistas de Gestão de Demanda Noturna (GDN). Válida atualmente entre 19h e 5h, a medida é adotada há décadas na Região Metropolitana de São Paulo com o objetivo de conter vazamentos em horários de menor consumo e exige autorização da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp). A versão mais recente do procedimento entrou em vigor em agosto do ano passado.
A GDN distingue-se do rodízio tradicional — no qual o fornecimento de água é completamente cortado por horas ou dias de forma alternada entre bairros, modelo cuja última aplicação oficial ocorreu meados dos anos 1990. Na severa crise hídrica de 2014 e 2015, o rodízio não foi decretado formalmente, mas a intensa redução de pressão provocou efeito prático semelhante para parcela expressiva dos habitantes. Uma década depois, a rotina de restrição ao recurso permanece inalterada em diversos pontos das bordas da cidade.
Desigualdade territorial e áreas críticas no município
O impacto assimétrico da redução de pressão sobre a população paulistana é detalhado na minuta do Plano Municipal de Saneamento Ambiental Integrado de São Paulo (PMSAI-SP). O diagnóstico, elaborado em parceria com o ONU-Habitat (Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos), aponta que enquanto a população dos bairros centrais praticamente não nota as alterações no fluxo de água, as moradias situadas nos extremos da cidade enfrentam o esvaziamento total das torneiras.
O levantamento mapeou os pontos de maior criticidade e intermitência no município:
- Zona Sul: distritos de Parelheiros, Capela do Socorro, M’Boi Mirim e Cidade Ademar.
- Zona Leste: bairros de São Mateus, Cidade Tiradentes, Itaquera e Guaianases.
- Zona Norte: regiões de Perus, Brasilândia e Vila Nova Cachoeirinha.
Em todas essas localidades, a topografia acidentada impede que a água vença a gravidade para abastecer os morros nos momentos de despressurização da rede. O cenário é agravado pelo fato de que muitas moradias localizadas em assentamentos informais foram erguidas sem reservatórios internos ou caixas-d’água capazes de suprir as necessidades básicas durante a noite. No trecho visitado no Jardim D’Abril, a ocupação irregular avançou antes da crise hídrica da década passada, o que fez com que grande parte dos moradores não instalasse os reservatórios.
Invisibilidade na rede e escassez crônica
A cidade de São Paulo possui 78,3 mil endereços em situação de déficit relativo de cobertura de saneamento básico, aponta a análise do ONU-Habitat. Embora existam e utilizem poços ou ligações clandestinas, essas residências permanecem invisíveis no cadastro oficial da Sabesp. Do total de imóveis invisíveis, 88,17% ficam em assentamentos urbanos informais, como favelas. Os assentamentos rurais concentram 8,98% do déficit, enfrentando desafios ligados à dispersão territorial dos imóveis nas franjas do município.
A escassez é estrutural na capital paulista. Por estar situada em uma região de nascentes, a metrópole possui apenas 10% do volume mínimo de água por habitante recomendado pela Organização das Nações Unidas (ONU). O PMSAI-SP, atualmente sob análise para posterior envio e apreciação do prefeito Ricardo Nunes (MDB), propõe diretrizes para enfrentar o problema crônico.
Entre as propostas centrais do plano municipal está o encerramento da aplicação da GDN. Em substituição à redução de pressão, o documento sugere o uso de tecnologias de monitoramento, como sensores inteligentes e medidores ao longo do sistema de distribuição, permitindo a detecção e o reparo imediato de vazamentos sem a interrupção do fornecimento à população.
O posicionamento da Sabesp e da Prefeitura
Procurada, a Sabesp informou que realizou quase 48,5 mil novas ligações em áreas informais e rurais da capital entre 2024 e 2026. A companhia defendeu o uso da redução de pressão, alegando que soluções de sensorização são complementares e não substituem a medida. Segundo a empresa, a despressurização controlada é indispensável para evitar perdas físicas na rede e preservar os reservatórios, tendo garantido a economia de mais de 172 bilhões de litros de água — volume equivalente ao consumo de 30 milhões de pessoas durante um mês.
Como avanço tecnológico, a concessionária destacou a implantação, em Pindamonhangaba, da primeira válvula do tipo “Plug & Play” das Américas, tecnologia capaz de regular a pressão automaticamente com base na variação do consumo.
Sobre a situação específica do Jardim D’Abril, a Sabesp afirmou que o caráter de ocupação irregular dificulta a prestação oficial dos serviços e que a autorização para a implantação da rede regular encontra-se sob análise em conjunto com a gestão municipal. A concessionária relatou ainda ter identificado e iniciado o conserto de vazamentos apontados por moradores do local.
Por sua vez, a Secretaria Municipal das Subprefeituras declarou que não havia localizado a solicitação feita pela Sabesp até a publicação da reportagem e que entrou em contato com a concessionária para confirmar a localização exata do endereço, visando à regularização da infraestrutura e à liberação das obras necessárias.



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