25/07/2026

Periferia de São Paulo enfrenta racionamento diário de água causado por redução de pressão da Sabesp

 


do Brasil 247


População das extremidades da capital sofre com torneiras secas no período noturno devido à estratégia de gestão de demanda, aponta diagnóstico

Sabesp
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247 – A diminuição diária da pressão nas tubulações de água pela Sabesp tem provocado a sensação de um racionamento diário e ininterrupto para moradores de regiões periféricas da cidade de São Paulo. A prática atinge de forma desproporcional as áreas mais vulneráveis e situadas em pontos elevados, onde o abastecimento deixa de chegar quando a força do fluxo é reduzida pela concessionária durante a noite, informa a Folha de São Paulo.

Em comunidades do Jardim D’Abril, no extremo oeste da capital paulista, a combinação entre a topografia de morros e a ausência de conexões oficiais com a rede gera desabastecimento constante. “Aqui falta água todo dia”, relata o líder comunitário Anailson Santos Lima, de 48 anos. De acordo com o morador, os impactos na rotina do bairro são imediatos. “Quando chegam do trabalho, no começo da noite, as pessoas não conseguem tomar banho porque a água fica fraca e o chuveiro queima”, acrescenta.

Entenda a diferença entre redução de pressão e rodízio

A estratégia aplicada pela Sabesp é chamada tecnicamente por especialistas de Gestão de Demanda Noturna (GDN). Válida atualmente entre 19h e 5h, a medida é adotada há décadas na Região Metropolitana de São Paulo com o objetivo de conter vazamentos em horários de menor consumo e exige autorização da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp). A versão mais recente do procedimento entrou em vigor em agosto do ano passado.

A GDN distingue-se do rodízio tradicional — no qual o fornecimento de água é completamente cortado por horas ou dias de forma alternada entre bairros, modelo cuja última aplicação oficial ocorreu meados dos anos 1990. Na severa crise hídrica de 2014 e 2015, o rodízio não foi decretado formalmente, mas a intensa redução de pressão provocou efeito prático semelhante para parcela expressiva dos habitantes. Uma década depois, a rotina de restrição ao recurso permanece inalterada em diversos pontos das bordas da cidade.

Desigualdade territorial e áreas críticas no município

O impacto assimétrico da redução de pressão sobre a população paulistana é detalhado na minuta do Plano Municipal de Saneamento Ambiental Integrado de São Paulo (PMSAI-SP). O diagnóstico, elaborado em parceria com o ONU-Habitat (Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos), aponta que enquanto a população dos bairros centrais praticamente não nota as alterações no fluxo de água, as moradias situadas nos extremos da cidade enfrentam o esvaziamento total das torneiras.

O levantamento mapeou os pontos de maior criticidade e intermitência no município:

  • Zona Sul: distritos de Parelheiros, Capela do Socorro, M’Boi Mirim e Cidade Ademar.
  • Zona Leste: bairros de São Mateus, Cidade Tiradentes, Itaquera e Guaianases.
  • Zona Norte: regiões de Perus, Brasilândia e Vila Nova Cachoeirinha.

Em todas essas localidades, a topografia acidentada impede que a água vença a gravidade para abastecer os morros nos momentos de despressurização da rede. O cenário é agravado pelo fato de que muitas moradias localizadas em assentamentos informais foram erguidas sem reservatórios internos ou caixas-d’água capazes de suprir as necessidades básicas durante a noite. No trecho visitado no Jardim D’Abril, a ocupação irregular avançou antes da crise hídrica da década passada, o que fez com que grande parte dos moradores não instalasse os reservatórios.

Invisibilidade na rede e escassez crônica

A cidade de São Paulo possui 78,3 mil endereços em situação de déficit relativo de cobertura de saneamento básico, aponta a análise do ONU-Habitat. Embora existam e utilizem poços ou ligações clandestinas, essas residências permanecem invisíveis no cadastro oficial da Sabesp. Do total de imóveis invisíveis, 88,17% ficam em assentamentos urbanos informais, como favelas. Os assentamentos rurais concentram 8,98% do déficit, enfrentando desafios ligados à dispersão territorial dos imóveis nas franjas do município.

A escassez é estrutural na capital paulista. Por estar situada em uma região de nascentes, a metrópole possui apenas 10% do volume mínimo de água por habitante recomendado pela Organização das Nações Unidas (ONU). O PMSAI-SP, atualmente sob análise para posterior envio e apreciação do prefeito Ricardo Nunes (MDB), propõe diretrizes para enfrentar o problema crônico.

Entre as propostas centrais do plano municipal está o encerramento da aplicação da GDN. Em substituição à redução de pressão, o documento sugere o uso de tecnologias de monitoramento, como sensores inteligentes e medidores ao longo do sistema de distribuição, permitindo a detecção e o reparo imediato de vazamentos sem a interrupção do fornecimento à população.

O posicionamento da Sabesp e da Prefeitura

Procurada, a Sabesp informou que realizou quase 48,5 mil novas ligações em áreas informais e rurais da capital entre 2024 e 2026. A companhia defendeu o uso da redução de pressão, alegando que soluções de sensorização são complementares e não substituem a medida. Segundo a empresa, a despressurização controlada é indispensável para evitar perdas físicas na rede e preservar os reservatórios, tendo garantido a economia de mais de 172 bilhões de litros de água — volume equivalente ao consumo de 30 milhões de pessoas durante um mês.

Como avanço tecnológico, a concessionária destacou a implantação, em Pindamonhangaba, da primeira válvula do tipo “Plug & Play” das Américas, tecnologia capaz de regular a pressão automaticamente com base na variação do consumo.

Sobre a situação específica do Jardim D’Abril, a Sabesp afirmou que o caráter de ocupação irregular dificulta a prestação oficial dos serviços e que a autorização para a implantação da rede regular encontra-se sob análise em conjunto com a gestão municipal. A concessionária relatou ainda ter identificado e iniciado o conserto de vazamentos apontados por moradores do local.

Por sua vez, a Secretaria Municipal das Subprefeituras declarou que não havia localizado a solicitação feita pela Sabesp até a publicação da reportagem e que entrou em contato com a concessionária para confirmar a localização exata do endereço, visando à regularização da infraestrutura e à liberação das obras necessárias.

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