247 – Os resultados do primeiro turno das eleições de 2026 expuseram diferenças relevantes entre as últimas pesquisas de intenção de voto e a votação registrada nas urnas em disputas para a Presidência da República, governos estaduais e Senado. No cenário nacional, os principais levantamentos publicados às vésperas da eleição indicavam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) numericamente à frente, mas Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno na liderança.
Segundo levantamento publicado pelo Metrópoles, institutos como Datafolha, Quaest, AtlasIntel, CNT e Real Time Big Data apresentaram, nos dias anteriores à votação, resultados diferentes do que seria observado no domingo (4). A reportagem destaca que divergências também apareceram em eleições estaduais e nas disputas por vagas no Senado.
Com 99,99% das urnas apuradas, Flávio Bolsonaro recebeu 56.104.268 votos, equivalentes a 47,03% dos votos válidos. Lula somou 53.876.617 votos, ou 45,16%. A diferença entre os dois foi superior a 2,2 milhões de votos, segundo dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Nas últimas pesquisas de votos válidos citadas pelo Metrópoles, o Datafolha mostrava Lula com 45% e Flávio com 42%. A Quaest registrava 46% para o presidente e 45% para o senador. Na Real Time Big Data, o resultado era de 43% a 39%, enquanto a AtlasIntel apontava 47% a 44,1%. A CNT indicava uma diferença ainda maior, de 47,8% a 42,1%.
Nenhum desses levantamentos reproduziu a ordem dos dois primeiros colocados observada nas urnas. Os institutos ressaltam, porém, que pesquisas eleitorais medem a intenção de voto no momento em que as entrevistas são realizadas e não constituem previsões do resultado final.
Ao Metrópoles, o diretor executivo do Real Time Big Data, Lucas Thut Sahd, afirmou que as sondagens devem ser interpretadas como “retratos de momento”. “O conceito de pesquisa é diferente do resultado da urna”, declarou.
Diferenças também aparecem nos governos estaduais
As discrepâncias não ficaram restritas à disputa presidencial. No Distrito Federal, levantamentos recentes indicavam possibilidade de vitória de Celina Leão (PP) ainda no primeiro turno.
A apuração, porém, levou a disputa para uma segunda rodada. Celina terminou com 49,9% dos votos válidos, enquanto Leandro Grass (PT) recebeu 34,4%.
Nas pesquisas mencionadas pelo Metrópoles, a Quaest atribuía 53% a Celina e 32% a Grass. A Real Time Big Data apontava 52% a 29%, e o Datafolha, 55% a 27%. A AtlasIntel era a que apresentava cenário mais próximo do observado posteriormente, com 45,3% para Celina e 34% para Grass.
A reportagem também identificou diferenças entre pesquisas e resultados em outras corridas estaduais, entre elas a do Rio de Janeiro.
Senado teve resultados diferentes das sondagens
As eleições para o Senado concentraram algumas das maiores diferenças entre os cenários medidos anteriormente e o resultado das urnas, especialmente no Distrito Federal, Rio de Janeiro e São Paulo.
No Distrito Federal, Michelle Bolsonaro (PL) confirmou a liderança apontada por boa parte das pesquisas e terminou com 29,05%. A segunda vaga ficou com Bia Kicis (PL), que recebeu 27,44%. Leila do Vôlei (PDT) somou 21,25%, enquanto Erika Kokay (PT) obteve 18,91%.
A Quaest havia apontado Michelle com 31%, Leila com 27%, Bia com 24% e Erika com 17%. O Datafolha registrava Michelle com 30%, Bia com 24%, Leila com 21% e Erika com 18%. Já a AtlasIntel colocava Bia numericamente à frente de Michelle, com 27,2% contra 26,1%.
No Rio de Janeiro, Carlos Portinho (PL) foi reeleito com 26% e Carlos Jordy (PL) conquistou a outra vaga com 24%. Pesquisas divulgadas antes da eleição mostravam Benedita da Silva (PT) entre os nomes com possibilidade de eleição, inclusive numericamente à frente em alguns levantamentos. Ela não ficou entre os dois eleitos.
O Datafolha, por exemplo, mostrava Benedita com 26%, Portinho com 19% e Jordy com 18%. A Real Time Big Data indicava Jordy com 18%, Benedita com 15% e Portinho com 14%. Na Quaest, os três apareciam próximos: Portinho com 23%, Jordy com 22% e Benedita com 21%.
Em São Paulo, as pesquisas apontavam uma corrida equilibrada entre quatro candidatos. O resultado final, porém, abriu distância entre os dois eleitos e os demais concorrentes.
Guilherme Derrite (PP) terminou com 30,59%, seguido por André do Prado (PL), com 29,28%. Simone Tebet (PSB) recebeu 19,23%, enquanto Marina Silva (Rede) ficou com 18,12%.
Na última Quaest citada pela reportagem, Derrite aparecia com 25%, André do Prado com 23% e Marina e Tebet empatadas em 22%. O Datafolha registrava 22% para Derrite e André, 21% para Marina e 20% para Tebet. A AtlasIntel apontava Derrite com 25,9%, André com 24,2%, Tebet com 22,2% e Marina com 21,5%.
Alto número de indecisos dificulta pesquisas para o Senado
O professor de Ciência Política da Universidade Federal do Piauí (UFPI) Elton Gomes atribuiu parte das diferenças nas pesquisas para o Senado ao menor interesse do eleitor por essa disputa e ao elevado número de indecisos.
“O brasileiro, via de regra, se importa muito pouco com a eleição de senador e, portanto, leva a essas distorções nas pesquisas”, afirmou ao Metrópoles.
Ele acrescentou: “Esse tipo de comportamento, profundamente arraigado no Brasil, traz dificuldades para os institutos de pesquisas. Além do baixo interesse, há um nível muito grande de indecisos e muita gente opta por só escolher o senador nos últimos dias ou até no dia da eleição, mesmo sem entender muito bem o que ele faz”.
O cientista político Antônio Lavareda também ressaltou que as pesquisas medem a distribuição das preferências dos eleitores entrevistados dentro de uma determinada amostra e período. Mudanças de última hora, comparecimento desigual entre grupos do eleitorado e decisões tomadas apenas no dia da votação podem produzir diferenças entre os últimos levantamentos e o resultado definitivo.
Com o primeiro turno encerrado, Flávio Bolsonaro e Lula disputarão a Presidência no segundo turno, marcado para 25 de outubro.



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