Indicadas pelo Ministério das Mulheres, as pescadoras artesanais Joana Mousinho e Luena Pataxó foram reconhecidas mundialmente como lideranças rurais em cerimônia na sede da Organização
O Brasil teve duas representantes entre as homenageadas da iniciativa global 100 Mulheres Heroínas da FAO nos Sistemas Agroalimentares e no Desenvolvimento Rural ( FAO 100 Women Heroes in Agrifood Systems and Rural Development ). As pescadoras artesanais brasileiras Joana Rodrigues Mousinho e Luena Maria Ferreira dos Santos (Luena Pataxó) foram selecionadas pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para integrar a lista, em um processo altamente competitivo, que recebeu mais de 600 indicações de mais de 131 países. A iniciativa destaca mulheres cujas trajetórias têm contribuído para a segurança alimentar, a inclusão social, a sustentabilidade ambiental, a geração de renda e a resiliência das comunidades rurais.
Indicadas pelo Ministério das Mulheres, as duas lideranças integram o Fórum de Políticas Públicas de Autonomia Econômica e Cuidado com Mulheres da Pesca, Aquicultura Artesanal e Marisqueiras do Brasil. As duas mulheres serão foram reconhecidas em cerimônia oficial da FAO, nesta quinta-feira (15 de outubro), no contexto do Fórum Mundial da Alimentação (World Food Forum - WFF) e do Ano Internacional da Mulher Agricultora 2026. A convite da FAO, Joana e Luena participaram não só da cerimônia de reconhecimento das 100 Mulheres Heroínas, mas também de outras atividades do WFF, que acontece de 8 a 16 de outubro, na sede da Organização em Roma.
“A escolha de Joana Mousinho e Luena Pataxó reflete não apenas suas realizações individuais, mas também o compromisso do Brasil com o fortalecimento das mulheres agricultoras e pescadoras, empreendedoras, lideranças comunitárias e agentes de transformação dos sistemas agroalimentares”, afirma o Representante da FAO no Brasil, Jorge Meza. “A mulher tem papel fundamental na construção de sistemas agroalimentares e sustentáveis, bem como para a segurança alimentar, o desenvolvimento rural e a conservação dos conhecimentos tradicionais e dos recursos naturais.”
“Reconhecer Joana Mousinho e Luena Pataxó é dar visibilidade ao trabalho das mulheres da pesca artesanal, que alimentam nossas comunidades, protegem os territórios e preservam conhecimentos tradicionais. Suas trajetórias mostram por que as pescadoras precisam ser ouvidas e participar das decisões sobre as políticas que afetam suas vidas. Esse reconhecimento reforça a importância de garantir direitos, autonomia econômica e condições dignas de trabalho para essas mulheres”, afirma a ministra das Mulheres, Márcia Lopes.
Liderança histórica na pesca artesanal
Natural de Pernambuco, Joana, de 70 anos, é uma das pioneiras da pesca artesanal no Brasil. Pescadora desde a infância, foi uma das primeiras mulheres do país a obter o Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP) e a primeira mulher a presidir uma colônia de pescadores. Atua há mais de seis décadas na pesca artesanal no Canal de Santa Cruz, em Itapissuma (PE), onde captura peixes, camarões, mariscos e siris e comercializa diretamente sua produção.
Reconhecida nacionalmente por sua atuação, Joana recebeu em 2024 o Prêmio Mulheres das Águas, concedido pelo Ministério da Pesca e Aquicultura, na categoria Pesca Artesanal em Águas Marinhas. Ela também foi uma das fundadoras da Articulação Nacional das Pescadoras, movimento que contribuiu para ampliar a visibilidade e os direitos das mulheres trabalhadoras da pesca artesanal no Brasil.
Ao longo de sua trajetória, tornou-se uma voz ativa na defesa da pesca artesanal, do reconhecimento profissional das mulheres pescadoras e da proteção dos territórios costeiros ameaçados pela expansão de grandes empreendimentos.
“Este reconhecimento da FAO incentiva as mulheres a lutar e a participar cada vez mais dos espaços de decisão, porque vemos que estamos ganhando visibilidade. Foi uma conquista, minha comunidade está muito feliz e agradecida”, afirma Joana.
Empreendedorismo indígena e fortalecimento comunitário
Aos 44 anos, Luena é uma liderança indígena da etnia Pataxó, presidente da Associação dos Pescadores Indígenas Pataxó (Apip), no distrito de Coroa Vermelha, no município de Santa Cruz Cabrália, no sul da Bahia. Também preside o Comitê de Relacionamento de Pescadores do extremo sul da Bahia, que reúne oito municípios e 13 associações. Criou o Grupo de Trabalho Indígena Nacional, através do Plano Nacional da Pesca Artesanal, liderado pelo Ministério da Pesca.
Construiu uma trajetória marcada pelo empreendedorismo, pela valorização da cultura Pataxó e pelo fortalecimento econômico das mulheres de sua comunidade. Sob sua liderança, a associação conquistou melhorias para os pescadores locais, ampliou parcerias institucionais e implementou iniciativas voltadas à segurança no mar e à geração de renda para famílias que vivem da pesca artesanal, especialmente da pesca de camarão.
Seu trabalho foi reconhecido pelo Prêmio Sebrae Mulher de Negócios, no qual conquistou o primeiro lugar na etapa estadual e o terceiro lugar na etapa nacional na categoria Produtora Rural. Luena também integra espaços de governança da atividade pesqueira no extremo sul da Bahia e atua na promoção de práticas sustentáveis, na valorização dos povos indígenas e na defesa da pesca artesanal como atividade econômica e cultural essencial para sua comunidade.
“É uma honra ter o reconhecimento internacional da luta do meu povo indígena, que não é de hoje, e é diária. A homenagem não é para mim, estou representando a minha comunidade. Carrego comigo minha raiz e meus parentes indígenas. Somos os guardiões do meio ambiente”, afirma Luena. “A nossa luta é tanto pela pesca artesanal quanto pela saúde e pelo reconhecimento das mulheres. A pesca artesanal é uma atividade que respeita a natureza – os ventos, os mares, a lua. Eles nos dizem quando é hora de parar.”
Mulheres que transformam
A iniciativa FAO 100 Women Heroes in Agrifood Systems and Rural Development foi criada para reconhecer mulheres cujas ações vêm promovendo mudanças positivas e duradouras em suas comunidades, territórios e países. As homenageadas representam diferentes áreas dos sistemas agroalimentares, incluindo agricultura, pesca, aquicultura, empreendedorismo rural, ciência, inovação, preservação ambiental e liderança comunitária.
As mulheres representam 41% da força de trabalho global nos sistemas agroalimentares, proporção quase igual à dos homens. Elas desempenham papéis fundamentais em toda a cadeia — da produção e do processamento à distribuição e ao comércio — e são essenciais para a segurança alimentar e nutricional das famílias. Entretanto, enfrentam de forma desproporcional empregos precários, más condições de trabalho e direitos limitados.
A FAO coopera para garantir os direitos das mulheres, com os quais fortalecem-se os sistemas agroalimentares e o desenvolvimento rural. Desta forma, contribui-se para a prosperidade das comunidades. Por isso, a organização cria e apoia iniciativas para empoderar as mulheres do campo, com o objetivo de melhorar o seu bem-estar, reduzir a fome, aumentar a diversidade alimentar, ampliar a renda, fortalecer as economias locais e a resiliência das populações.

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