do jornal da estância
No
sábado, 03/12, o São Roque Clube recebeu um grande público para o show do
cantor e compositor Guilherme Arantes.
Cantando
os principais sucessos de sua carreira, Guilherme Arantes levantou e fez o
público cantar e se emocionar com canções como: Planeta Água, Um dia um Adeus,
Êxtase, Viva a Noite, e muitas outras que fizeram deste artista um dos maiores
nomes da Música Popular Brasileira.
Guilherme
esbanjou energia e simpatia.
A
organização do evento esteve perfeita e a altura para um show desse porte. Tivemos a oportunidade de entrevistá-lo, você
acompanha abaixo.
JE – Primeiramente eu queria você falasse da sua
relação com a música, e como você chegou aonde chegou na sua carreira?
Guilherme Arantes – A música na minha vida começou
muito cedo, por que meu pai apesar de médico era muito ligado a música. Tocava violão, bandolin, cavaquinho... Tinha
a turma dele que eram médicos e tinham na música um hobby. Posso citar Paulo Vanzolini como um dos
membro deste grupo de amigos do meu pai.
Então a música fluiu na minha vida por influência do meu pai, com 4 anos
ele me deu um cavaquinho, depois me deu um bandolin, ai viu que eu tinha jeito
então me pôs para estudar piano. O
grande legado que meu pai deixou foi me ensinar tocar de ouvido, não ficar se
prendendo a partitura, ou seja ouvir a música no rádio e depois sair tocando. Essa é a grande lição do meu pai. Depois mais
tarde ele não queria que eu fosse músico profissional e reagiu
negativamente. Foi muito difícil, pois
ele criou um monstro que acabou aborrecendo ele. Neste período eu acabei indo fazer
Arquitetura na USP, mas logo a música falou mais alto, pois eu gostava muito de
música e foi um período muito favorável que a gente viveu, final dos anos 60 e
início dos anos 70, o auge da canção, a música popular vivia um grande momento
de criatividade, não no mundo , mas no Brasil também, com a Bossa Nova, Chico
Buarque, Milton Nascimento, o Tropicalismo, a Jovem Guarda e eu vivi todos
esses movimentos. E gostaria também de
colocar o movimento da Contracultura no final dos anos 60.
JE – Antes disso você fez parte de uma banda que se
chamava Moto Pepétuo, fale um pouco dessa fase?
Guilherme Arantes – O Moto Perpétuo foi um colega de
faculdade que era o Claudio, nós montamos uma banda, eu tinha um grande amigo
que era o Diógenes, um baterista muito bom que tocou com o Valter Franco, Jorge
Mautner, e foi um dos membro de uma banda chamada O Banto, então montamos o
Moto Perpétuo que era um projeto mais ambicioso, de música mais progressiva, um
progressivo mais brasileiro e de ótima qualidade trabalho muito bonito que a
gente fez lançamos um disco pela Continental, só que era um período muito
incipiente do rock brasileiro, você não tinha infra-estrutura nenhuma de shows,
de festivais, era tudo muito precário.
Nós tocamos no Festival de Águas Claras em Iacanga, e foi uma época
muito traumático para nós, pois era tudo muito precário. Já em 1976, eu estreei como cantor pela Som
Livre em trilhas de novelas, porque era uma possibilidade que se abria e também
foi o auge das trilhas de novelas que eu peguei. Tinha o Guto Graça Mello que era o diretor
musical da TV Globo e também da Som Livre, então eu fui lançado. Era um período de muito sucesso do Elton John,
que era tido com o número um do pop mundial, um artista muito versátil, muito
escandaloso, e vendendo milhões de discos com baladas belissímas, então isso
abriu muito caminho para mim, pois eu também tocava piano e tinha assimilado
bem a coisa do pop rock mundial, dos Beatles, dos progressivos e tudo, quando
eu estreei eu tive muita facilidade de engatar uma carreira, logo em seguida eu
peguei algumas novelas importantes como Dancing Days que foi fundamental para
mim e a minha música Amanhã fazia parte da trilha e foi um marco, pois era tema
da presidiária, papel importante vivido pela Sonia Braga. E foi uma novela de grande impacto e muito
sucesso, então neste contexto minha carreira decolou.
JE – Hoje você é um nome reverenciado na MPB. Quando você começou a crítica torceu o nariz
para sua música, logo em seguida rolou o movimento do rock brasileiro no início
dos anos 80 e você foi inserido nele.
Como você sente com relação a crítica que torceu o nariz para sua música
no início e hoje te consagra como uma referência na MPB?
Guilherme Arantes -
O rock era muito contraculturalista, muito em prol de uma atitude de
rebeldia, contraposição, principalmente à Ditadura Militar que havia no País, e
como eu fui fazer trilhas de novelas eu fiquei muito identificado com o bloco
governista. Esse contexto político e
social, ele é muito importante porque ele acaba prevalescendo, hoje você vê a
importância da integração do negro no consumo, então você observa que os
artistas que são a bola da vez hoje tem uma ligação bem estreita com a cultura
negra, com a periferia, vamos dizer com a revolução das periferias. Esse pano de fundo político e social acaba
tendo mais importância do que o próprio artista. Mas o que me ajudou muito foram os flancos
que se estabeleceram, primeiro com a gravação da Elis, pois eu acho que a Elis
foi um divisor de águas na minha vida, na minha carreira, porque você ter não
só uma música gravada pela Elis, mas se tornar o autor de um grande sucesso que
resgatava a Elis para o rádio já numa fase da implantação da FM no Brasil, que
o FM era refratário aos artistas que tinham feito muito sucesso no AM. Essa passagem do AM para o FM, muitos
artistas não fizeram bem essa mudança, um deles é o Roberto Carlos. Se você parar para pensar o Roberto teve o
seu apogeu no AM, ele não conseguiu vira muito para o FM. Virou porque os tempos passaram e ele acabou
tendo boas execuções. Outro exemplo é a
Maria Bethania que brilhou muito na era da televisão, dos festivais na fase
ainda do AM e a virada e a virada do FM ela foi rejeitada. E eu participei da
entrada dessas duas cantoras maravilhosas nas rádios FM.
Então eu acho que depois com o advento do rock
brasileiro eu acabei tomando uma dianteira de um pop mais popular com o
Chacrinha. Quando as bandas se
estabeleceram a partir do rock’in Rio em 1985, realmente quando eclodiu o
movimento do pop rock no Brasil, eu fiquei marginalizado.
JE – E como é se sentir assim?
Guilherme Arantes - Eu não
dava muito valor pelo seguinte: Eu estava preocupado com o público
feminino. O grande diferencial para mim
foi eu ter focado na mulher, que era uma coisa que o rock não estava
preocupado, deveria ter estado, por que o tempo passou, e já no ano 2000 para
cá o que é de mais ponta de lança no Brasil é a mulher. A mulher que hoje assumi uma linha de frente
na MPB, então rock ficou anacrônico no Brasil.
E a mulher hoje faz parte da vanguarda e engraçado que aí várias
cantoras vieram a regravar músicas minhas, como a Vanessa da Mata, Adriana
Calcanhoto, a nova geração é muito chegada nas minhas músicas, falo dos novos
que estão surgindo. Há um resgate hoje
do piano como instrumento do pop, que você para para olhar na década de 90 e o
começo dos anos 2000 vamos observar que agora que ele está sendo resgatado, com
bandas como Cold Play, no Brasil Marcelo Geneci que toca piano também. Então esta se voltando a ter o piano na
música popular, mas ficou muito tempo de fora, isso tem a ver com as atitudes,
eu acho que os anos 90 foi uma década perdida para música popular no sentido de
ter sido mais para atitude do Axé, Pagode, Sertanejo, são atitudes, então você
tem toda uma indumentária, uma gesticulação, uma linguagem visual que
identifica muito; você é pagodeiro, você é axé, você é sertanejo. E eu fui um cara que atravessei isso aí com
serenidade, com alegria e com gratidão.Hoje eu já estou numa fase de investir
em coisas bizarras de música barroca, de eu tocar novamente coisa do século
XVII, eu quero ser mais atemporal mesmo essa é minha preocupação.
JE – Qual a expectativa para o show dessa noite?
Guilherme Arantes – Aqui vai ser gostoso porque é um
show de compositor, eu faço um apanhado da carreira, diversos momentos, tem
muita música para compartilhar, e o público se prende muito ao repertório esse
que é o diferencial. È ter esse
repertório para poder cantar, ter música gravada por Elis, por Bethania, por
Caetano, tanta gente e a minha carreira eu acho que acabou sendo vitoriosa
assim. Quanto a indústria do disco a
gente vê que vive-se um momento difícil da indústria fonográfica, mas eu acho que
a gente vai atravessar isso, eu consegui uma atemporalidade e isso que o show
acaba revelando, essa relação com o tempo que durou, esse 35 anos passaram
depressa, mas tem muita coisa para compartilhar com o público. É gostoso.
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