Arte de Cecilia Ramos

Após a fala de duas mulheres negras e militantes das causas feministas na Câmara Municipal de São Roque no dia 21 de março, a vereadora Dra. Cláudia Pedroso se diz atacada por ser branca e não vir de periferia…


Pois bem, vamos repetir o que falamos no dia do discurso, somos vítimas, mas não usaremos postura de vitimismo. Nós, mulheres negras, periféricas, mães solos, vítimas de violência doméstica, vivemos na pele a estrutura do patriarcado. Somos atacadas diariamente, não temos outra opção a não ser lutar... 


A vereadora sentiu-se atacada por sua condição branca, afirmando sofrer discriminação. Verdadeiramente não estamos falando das mesmas realidades… Em sua fala, Cláudia Pedroso demonstrou profundo desconhecimento, não só sobre o feminismo como também sobre a realidade material do país. Colocar sob o mesmo guarda-chuva “todas as mulheres”, como se todos fossem iguais, é no mínimo inocente, para não dizer desonesto. Infelizmente as mulheres não partem do mesmo lugar nessa corrida desleal, só quem vive numa bolha de privilégios e que nunca percebeu que vivemos numa sociedade estratificada e explorada, poderia fazer infundadas afirmações. 


No alto de sua branquitude, a vereadora ficou irritada. Há estudos baseados no fenômeno branquitude e seu lugar de privilégio. Branquitude é discutir o que é ser branco nessa sociedade racista, reconhecer enquanto pessoa branca o seu lugar de privilégio. Não! Definitivamente, não partimos do mesmo lugar, nobre vereadora. 


Ao assistirmos ao vídeo da vereadora, infelizmente concluímos que o feminismo defendido por ela é o feminismo liberal, de alguém que, além de defender o sistema que esmaga e oprime a todo custo as mulheres trabalhadoras, utiliza de discurso de vitimismo, recorrendo ao termo fictício "racismo reverso". Não existe racismo reverso, nobre vereadora. O racismo é uma problemática branca! Não existe racismo reverso, sobretudo quando refletimos sobre a condição estrutural que segrega e domina, amparado no conceito de raças. Existe, na realidade, uma condição limitante, opressora e discriminatória, baseado em sua cor de pele. 


Não basta só trocar palavras e supor que está falando com coerência, fazer isso é limitar a historicidade dos fatos. Para haver o racismo reverso, o branco teria que sofrer tudo o que os negros sofreram ao longo da história, racismo tem cheiro de dor, tortura e morte. Tanto da morte física quanto da morte social da população negra. Entretanto, no mês das mulheres, quando uma mulher negra, quilombola, com documentos que comprovam que seus descendentes aqui estavam antes mesmo de sua família sequer pisar na cidade, entendemos que você, no auge dos seus privilégios, deve sempre ceder o espaço para que essa mulher quilombola fale.


Falta visão da luta de classes em suas colocações, utiliza-se de um discurso de que "todos somos iguais", naturalizando as mazelas dessa sociedade. O racismo é único e exclusivamente direcionado a pessoas negras, é um crime histórico, criado pelo ódio à etnia negra que matou e continua a matar milhares de pessoas negras em todo o mundo.


Com todo respeito à nobre vereadora, a senhora saberia disso se sua militância não fosse apenas para defender seu prefeito que tanto prejudicou as mulheres dessa cidade.


Diana Menezes - Vice-presidenta da APE São Roque


Frente Popular de São Roque e Região - subscreve esse nota