brasil 247
Conteúdo alcançou dezenas de milhões de eleitores e atinge um público fora da bolha lulista – e até antipetista
247 – A entrevista concedida pela ex-deputada federal Joice Hasselmann ao jornalista Leonardo Attuch, na TV 247, na noite de quinta-feira (22), tornou-se um dos conteúdos de maior repercussão da reta final da eleição presidencial de 2026. Com mais de 1 milhão de visualizações no canal da TV 247, alcance superior a 30 milhões de pessoas nas redes sociais da própria ex-parlamentar e dezenas de milhões de visualizações de trechos reproduzidos em outras contas do Instagram, o depoimento ganhou uma dimensão que ultrapassa amplamente o público tradicional da esquerda e dos apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A repercussão foi ampliada pelo compartilhamento de trechos da entrevista por personalidades de grande alcance nas redes sociais, como as atrizes Paolla Oliveira e Bruna Marquezine. Um dos momentos mais difundidos foi o apelo de Joice às mulheres brasileiras, no qual a ex-deputada relata a violência que afirma ter sofrido após romper com Jair Bolsonaro, quando foi brutalmente agredida, e pede que as eleitoras não voltem a confiar na família do ex-presidente.
O potencial político da entrevista está justamente no perfil de quem faz o alerta. Joice não é uma militante histórica do PT nem uma apoiadora tradicional de Lula. Ao contrário, foi uma das principais figuras da campanha de Jair Bolsonaro em 2018, tornou-se a deputada federal mais votada da história até então e exerceu a liderança do governo no Congresso Nacional.
Sua declaração de voto em Lula, portanto, parte de uma trajetória de oposição ao PT e de participação direta na construção do bolsonarismo. É essa condição que confere ao depoimento a possibilidade de dialogar com eleitores que dificilmente seriam alcançados por mensagens tradicionais da campanha petista.
O mea-culpa que sensibilizou as redes sociais
Um dos trechos de maior repercussão foi aquele em que Joice reconheceu sua responsabilidade por ter ajudado a reduzir a rejeição feminina a Jair Bolsonaro durante a campanha de 2018.
“Eu normalizei o Bolsonaro entre as mulheres. Me arrependo muito e me culpo muito por isso”, afirmou.
A ex-deputada contou que organizava encontros com eleitoras, promovia palestras e apresentava Bolsonaro como alguém em quem as mulheres poderiam confiar. Relembrou inclusive a criação do movimento “princesas com Bolsonaro”, destinado a aproximar o então candidato do eleitorado feminino.
“Eu peguei na mão das mulheres brasileiras e disse: ‘Confiem nele, ele não é machista’. Foi o maior erro da minha vida”, declarou.
Ao reconhecer publicamente o erro, Joice construiu um relato que combina arrependimento pessoal, experiência política e uma advertência dirigida especialmente às mulheres que ainda consideram votar em Flávio Bolsonaro.
“Olhem para mim: ele tentou me matar”
O momento mais dramático da entrevista ocorreu quando Joice foi questionada sobre o que diria às mulheres que ainda apoiam a família Bolsonaro.
“Pelo amor de Deus, não se enganem mais com esta família. Olhem para mim! Olhem para a mulher que foi a principal figura feminina na campanha dele, que ajudou a elegê-lo, que foi a líder do governo no Congresso”, afirmou.
A ex-parlamentar relatou campanhas de difamação, ameaças contra seus familiares e o episódio de 2021 em que apareceu com graves ferimentos. Joice acusa integrantes e aliados do bolsonarismo de terem participado de uma tentativa de assassinato contra ela. A acusação é contestada pelas conclusões da investigação policial, que atribuiu os ferimentos a uma queda.
Na entrevista, Joice também denunciou a falta de solidariedade de antigas aliadas políticas e lembrou que recebeu apoio de mulheres da esquerda, como Manuela D’Ávila, apesar das divergências ideológicas entre elas.
A combinação de um testemunho pessoal sobre violência, um pedido de desculpas às mulheres e uma declaração de voto em Lula ajudou a transformar o trecho em um dos principais conteúdos compartilhados nas redes sociais durante a reta final da campanha.
Uma mensagem que rompe as fronteiras do eleitorado lulista
A principal singularidade da entrevista é sua capacidade de circular entre públicos politicamente distintos.
Joice construiu sua carreira parlamentar em oposição ao PT, participou ativamente da eleição de Bolsonaro e manteve durante anos um discurso crítico à esquerda. Sua mudança de posição, portanto, não representa uma adesão ideológica ao lulismo, mas uma decisão que ela apresenta como necessária para preservar a democracia.
“Afinal, perder uma eleição, tudo bem. Perder a democracia, jamais”, afirmou.
A ex-deputada também deixou claro que pretende continuar fazendo oposição ao PT depois da eleição, caso Lula seja reeleito.
“Sim, volto à oposição, mas dentro do processo democrático, onde é possível fazer oposição”, declarou.
Esse posicionamento diferencia seu depoimento das manifestações tradicionais de apoio ao presidente. Em vez de exigir identificação com o PT, Joice apresenta seu voto como uma escolha circunstancial, motivada por sua experiência com a família Bolsonaro e por sua avaliação dos riscos políticos de seu retorno ao poder.
A mensagem pode, assim, encontrar receptividade entre eleitores de centro, antigos apoiadores de Bolsonaro, mulheres conservadoras e pessoas que rejeitam o PT, mas também manifestam reservas em relação à família do ex-presidente.
Milhões de visualizações e o desafio de transformar alcance em votos
A viralização ocorre em um momento especialmente sensível da disputa presidencial. Pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (22) apontou empate entre Lula e Flávio Bolsonaro, com 50% dos votos válidos para cada candidato.
Nesse cenário, a circulação de conteúdos fora das bases tradicionais de cada candidatura ganha relevância política. A entrevista de Joice reúne características que podem favorecer esse alcance: uma personagem conhecida do eleitorado conservador, um rompimento pessoal com o bolsonarismo, denúncias de violência contra mulheres e uma justificativa explícita para votar em Lula sem abandonar suas convicções anteriores.
A repercussão entre celebridades também ampliou a circulação do depoimento para públicos que não acompanham regularmente o noticiário político. O compartilhamento por Paolla Oliveira e Bruna Marquezine é particularmente significativo pelo alcance das duas atrizes e pela centralidade do tema da violência contra as mulheres nos trechos difundidos.
O alcance, entretanto, não equivale automaticamente à conversão eleitoral. Não há, até o momento, pesquisa que permita quantificar quantos indecisos decidiram votar em Lula depois de assistir à entrevista ou quantos eleitores mudaram sua preferência.
Ainda assim, pela dimensão da audiência e pela capacidade de alcançar segmentos que não integram a base habitual do presidente, o depoimento de Joice se destaca como um dos conteúdos de maior potencial de influência na reta final da campanha.
Mais do que uma declaração de apoio eleitoral, a entrevista colocou no centro do debate uma personagem que ajudou a eleger Jair Bolsonaro, rompeu com seu governo e agora pede às mulheres brasileiras que reconsiderem sua relação com o projeto político da família.


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