segunda-feira, 3 de julho de 2017

PMs que atiraram em rapaz na Favela do Moinho são afastados

NVESTIGADOS

Para o advogado Ariel de Castro Alves, do Condepe, que acompanhou os depoimentos à Corregedoria da corporação, "existem muitos indícios de que o rapaz tenha sido torturado e executado"
por Camila Boehm, da Agência Brasil publicado 02/07/2017 15h37
ROVENA ROSA / FOTOS PÚBLICAS
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Manifestação de moradores da Comunidade do Moinho contra a ação da Polícia Militar que deixou um jovem morto
São Paulo – Os policiais militares que atiraram em Leandro de Souza Santos, 18 anos, na Favela do Moinho, região central da capital paulista, na última terça-feira (27) estão afastados de suas funções e foram transferidos para serviço administrativo. A informação foi divulgada pelo Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe) e confirmada pela Polícia Militar (PM). Os PMs estão sendo investigados pela Corregedoria da PM, que instaurou inquérito policial-militar na última sexta-feira (30), no qual quatro testemunhas já prestaram depoimento.
O jovem foi morto durante ação da Rota – batalhão de elite da PM de São Paulo – por volta das 10h da manhã. Na ocasião, ele chegou a ser levado para o Hospital Santa Casa, mas teve morte constatada ainda na entrada do pronto-socorro.
A Secretaria de Segurança Pública do estado disse, em nota, que "a fim de preservar os dois policiais militares envolvidos na ocorrência, bem como a lisura do processo investigativo, os mesmos (sic) foram transferidos temporariamente para o serviço administrativo na área central de São Paulo".
Testemunhas ouvidas no inquérito pela Corregedoria, na sexta-feira (30), disseram que os policiais ficaram mais de uma hora com Leandro dentro da casa onde ele foi atingido por disparos de arma de fogo. De acordo com o advogado Ariel de Castro Alves, coordenador da Comissão da Infância e Juventude do Condepe, que acompanhou os depoimentos, "existem muitos indícios de que o rapaz tenha sido torturado e executado."
Nessa primeira etapa, foram ouvidas a dona da casa onde Leandro foi atingido, a mãe dele, além de um irmão e uma irmã do jovem. Os irmãos relataram que foram agredidos pelos policiais militares ao tentarem entrar na casa. Segundo o advogado, ambos mostraram marcas de escoriações.
Ariel afirmou que "os PMs não deixaram as quatro testemunhas entrarem na casa. Disseram que nada ia acontecer com Leandro, mas, quando chegou a maca, os familiares se desesperaram. Depois tiraram a maca com ele em cima, numa manta térmica fechada". As testemunhas disseram ainda que o corpo do jovem ficou com vários hematomas e escoriações no rosto, joelho e pulsos, além dos dentes quebrados.
Preservação do local
Ariel disse ainda que os policiais desrespeitaram a resolução da Secretaria de Segurança Pública do estado (SSP) que trata da preservação do local do crime em caso de mortes envolvendo policiais. "O jovem pode ter morrido no local, na casa, segundo os relatos das testemunhas na Corregedoria, mas o corpo foi retirado para um suposto socorro à vítima", disse.
Mesmo após a retirada do rapaz "não houve preservação do local do crime e objetos possivelmente relacionados ao crime ficaram largados no local, tanto que cápsulas de disparos de arma de fogo e um martelo ensanguentado ficaram lá expostos."
Os familiares da vítima entregaram, também à Corregedoria, vídeos gravados enquanto os policiais estavam dentro da casa com Leandro, nos quais é possível ouvir um som alto na casa, barulhos de helicóptero e ver alguns dos policiais que atuaram na ação, contou Alves, e disseram que Leandro não tinha arma. Segundo os relatos das quatro testemunhas, todos os policiais estavam sem tarjetas de identificação nas fardas.
Após pedido do Condepe, o procurador-geral de Justiça do estado, Gianpaolo Poggio Smanio, designou a promotora Soraia Bicudo, da 1ª Vara do Juri, para acompanhar as investigações e o inquérito policial. Mais testemunhas devem ser ouvidas na próxima semana. “A Corregedoria está empenhada em esclarecer os fatos”, disse Alves.
Procuradas pela reportagem, a Polícia Militar e a Secretaria de Segurança Pública do estado de São Paulo (SSP) não se posicionaram sobre as denúncias de tortura do jovem e de agressão de seus familiares.

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